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Segunda-feira (11 de maio de 2009)
Rio de Janeiro
 
Quando eu depertei, apenas pensei que hoje seria o meu último dia no Rio de Janeiro e nada mais. Foquei na entrevista que eu tinha e devido à ela, acordei cedo e comecei a me organizar logo no princípio da manhã. Como estava concentrado na entrevista que eu tinha mais tarde, acabei não falando muito com Alice, que também estava ocupada. Escutei apenas uma reclamação sem sentido dela. Não entendi muito bem, mas fiquei tranquilo quando ela foi embora.
 
Ela saiu e continuei me organizando e somente quando eu já me preparava para sair do apartamento é que eu percebi que ela havia saído da casa com a minha chave e que devido a isso eu não poderia sair dalí. Estava trancado e se eu não ligasse logo para ela, eu perderia minha entrevista e teria grandes problemas. Fui ligar e descobri que eu não tinha mais créditos em meu celular – mais essa. Tive que ligar então do skype. Tentei uma vez, 2, 3, 4, 5, 6 vez e nada. Somente na sétima vez ela me atendeu.
 
Expliquei a situação para ela, que apenas dizia que ela não havia saído com minha chave. Tive que explicar minha delicada situação e dizer que eu precisava que ela trouxesse a chave o mais breve possível, pois eu não poderia perder o compromisso que eu tinha. Ela desligou. Fiquei sem saber se ela viria ou não. Apenas imaginei que daria tudo certo. Às 10 horas da manhã, hora que eu havia combinado com Djalma da Sportv, ele me ligou. Enquanto eu pedia desculpas para ele, Alice chegou cuspindo fogo.
 
Disse que por minha culpa ela havia perdido sua sessão de massagem. Pedi desculpas e agradeci a ajuda dela. Como estava com Djalma ao telefone, não pude falar muito com ela. Ela foi embora e eu peguei tudo para sair do apartamento e ir para a minha entrevista. Corri. Pedalei até o Leme, encontrei Djalma, colocamos a minha bicicleta em seu carro e depois seguimos para a sede da Globosat. Ali, nos organizamos e seguimos para a Lapa, para uma famosa escada que existe no local, construida por Selarón, um chileno amante do Brasil.
 
O mais interessante dessa escadaria é que ela é composta de azuleijos e ladrilhos de todo o mundo, alguns doados por alguns viajantes que estão passando por alí, mas a maioria trazida e comprada pelo prórpio Selarón. Começamos então nossa entrevista e lá pelo meio dela, é justamente Selarón que aparece alí. Coincidentemente, ele começou a brigar com um mendigo que passava pelo local, mas depois se acalmou e entrou na entrevista também.
 
Conversamos por um bom tempo e depois a entrevista seguiu o seu rumo normal, comigo falando de minha viagem e de tudo o que eu havia visto nestes últimos 3 anos. Foram mais de 4 horas de gravação e ao final, eu tinha uma ótima sensação, foi a entrevista havia sido muito boa e prometia um bom resultado também. Voltei pedalando para Copacabana e alí cheguei no apartamento de Alice, tomei um banho e depois fui almoçar, pois não havia comido quase nada ainda.
 
Comi, resolvi alguns problemas e depois voltei ao apartamento de Alice, para escrever e responder alguns e-mails que seriam decisivos para planejar meus próximos dias. Fiz isso e finalmente Alice chegou. Falamos um pouco e depois ela saiu para sua academia. Preparei então um arroz para comermos no jantar. Como não tinha muita fome, deixei o restos dos preparativos para ela. Ela chegou, não falou muito e começou a cozinhar. Eu, que estava de frente para o fogão, logo vi que algo estava queimando e avisei Alice. Ela disse que gostava de comida queimada. Não entendi, mas fiquei quieto, olhando para a tela de meu computador.
 
A panela continuou queimando e já começava a sair fumaça. Eu então tive que fazer alguma coisa. Levantei e disse que aquilo estava queimando demais e tirei a panela do fogo, dizendo que não era mais possível de comer algo como aquilo. Ela entendeu minha ajuda como afronta e logo começou a falar que eu a estava insultando, dizendo que ela não sabia cozinhar. A briga começou aí. A conversar foi apenas esquentando e esquentado, chegando a ficar tão preta quanto a frigideira que queimava sobre o fogo.
 
Ela disse que eu fui o culpado de ela ter perdido a massagem dela hoje e que isso era algo imperdoável. E eu apenas me perguntava o que eu havia feito para ela, mas independente do que fosse, ela foi me fazendo perder a paciência e ainda que eu fosse muito grato por estar ficando eu seu apartamento, prefiro dormir na rua, mas com honra, que dormir na casa de alguém sendo humilhado. Dei algumas respostas mais afiadas, mas ainda me contendo para não ferir demais com as palavras. Por fim, já cansado disse: “eu não disse que você não sabe cozinhar, eu apenas nunca vi em meus 27 anos, alguém queimar a comida assim, mesmo nos países mais distantes”.
 
Essa foi a última frase da noite.
 
Logo após isso uma atmosfera negra pairou sobre a casa e o silêncio predominou. Alice sumiu, foi para seu quarto, não comeu nada e não voltou mais. Eu fiquei sem saber o que fazer, mas ainda consciênte que ela havia exagerado e estava me tratando mal. A esta altura, eu apenas pensava em sair deste apartamento e ir para um albergue na cidade. Uma situação inédita em minha viagem, pois nunca havia brigado com alguém assim. De toda forma, isso foi acontecer justamente nestes últimos dias de estrada.
 
Havia uma lição por trás disso, eu apenas não sabia qual. Resolvi dormir então. Estava cansado.
 
Terça-feira (12 de maio de 2009)
Rio de Janeiro
 
Na manhã de hoje o clima pesado ainda pairava pela casa. Percebi que Alice havia despertado, mas continuei dormindo, para evitar maiores desgastes. Eu sabia que precisava deixar esta casa ainda hoje, tanto por ela quanto por mim mesmo, mas sabia que logo pela manhã não seria um bom momento para esta conversa delicada. Fiquei na cama e só saí dela quando Alice já havia ido embora. Levantei da cama e não sabia o que fazer em relação a este assunto.
 
Em mais de 3 anos viajando, uma situação como esta nunca havia acontecido comigo. Foi acontecer justo agora no final de minha viagem. Dificil de buscar um motivo para isso, já que parece que é um daqueles casos em que ninguém tem uma culpa real, mas as circunstâncias conduziram para essa situação. De uma forma estranha eu ainda me sentia feliz por poder viver esta experiência. Ainda que aparentemente negativa, era mais uma experiência que eu provava, mais uma lição que chegava até mim.
 
Precisaria arrumar um outro lugar para ficar, mas nem queria ficar na casa de ninguém agora, preferia pagar um quarto de hotel e simplesmente ter o meu canto, sem ter que falar, agradar ou desagradar alguém. Precisava de meu espaço fazia tempo e isso era um problema também. Sentia que um buscava apenas um lugar para que eu pudesse deixar minhas coisas, um quarto meu, uma casa que eu pudesse chamar de minha, onde pelo menos, ninguém pudesse me colocar para fora.
 
O dia foi passando enquanto eu trabalhava: envia e-mails, fazia ligações, escrevia textos, selecionava fotos, mandava mais e-mails, gravava cd’s e respondia à perguntas sobre minha viagem. Senti que eu tinha menos energia hoje que em meus dias anteriores na cidade, estava cansado, quase doente. Desta vez eu sabia que era emocional. Fiz uma pausa no meio de meu dia para ir à praia e relaxar um pouco. Foi uma ótima escolha, mas sentia que eu tinha assuntos pendentes à resolver e isso não me deixava tranquilo.
 
Voltei à casa de Alice e ela me ligou. De uma forma estranha, quase que insegura, mas ao mesmo tempo irritada, ela me insinuou a sair de sua casa. Concordei, pois era o que eu queria também. Disse que eu já sairia e deixaria a chave na recepção. Para minha surpresa, ela tinha medo que a chave de seu apartamento ficasse na recepção de seu prédio, por medo de que alguém entrasse em sua casa durante sua ausência. Não entendi muito bem este medo, mas aceitei esperá-la, para então eu ir embora.
 
Comecei a procurar um lugar para passar a noite então e mais uma surpresa: os albergues da região estavam cheios. Não sei como, mas estavam. Como eu sabia que precisava sair, fui para a rua atrás de um hotel barato, mas não encontrei nada, o mais barato que eu vi, era um hotel para prostitutas e seus clientes e mesmo assim era bastante caro. Voltei para o apartamento de Alice, derrotado, mas disposto à dormir em qualquer lugar, ainda que na rua.
 
Meu cansaço não era pequeno quando Alice me ligou pela segunda vez. Disse que iria chegar tarde, mais tarde do que me havia dito antes e por isso, seria melhor que eu ficasse em seu apartamento hoje e saísse apenas amanhã pela manhã. Como estava numa situação delicada, aceitei a proposta. Montei minha pequena e desconfotável cama mais uma vez, fechei minhas bolsas e dormi minha última noite naquele apartamento.
 
Quarta-feira (13 de maio de 2009)
Rio de Janeiro
 
Era evidente que um dos motivos que causara tantos problemas era a duração de minha estadia na casa desta garota francesa. Havia ficado tempo demais na casa de uma pessoa com quem eu não tinha vínculo algum. Eu não era amigo dela, nem amante, nem colega de trabalho, nem nada, era apenas um conhecido, um amigo de um amigo. Percebi que ela já havia feito um grande favor em me hospedar por todo este tempo. Infelizmente, minha estadia havia acabado assim.
 
Acordei cedo, arrumei a casa. Desmontei minha cama e a recoloquei no mesmo lugar onde eu a havia encontrado. Comi algumas comidas que eu tinha e me despedi de Alice, que nem me escutou, mas pareceu ter apenas medo de mim. Tive a leve impressão que ela achava que eu estava levando algo de sua casa, inclusive as chaves da porta. Disse adeus e saí com minhas bolsas. Senti um alívio muito grande neste momento. Uma leveza agradável, aquela independencia típica do viajante.
 
Eu sabia que se havia alguma pessoa que poderia ser mandada embora de uma casa, esta pessoa era eu. Eu tinha minha casa comigo e estar na rua não era uma novidade. Minha bicicleta era minha casa e meu transporte e com ela eu poderia ir para qualquer lugar. Fui para a rua e a sensação de liberdade, velha conhecida minha, logo tomou conta de mim. O dia estava maravilhoso, o céu azul, as pessoas nas praia e vida pelas ruas. Tive a impressão que não poderia haver um dia melhor para ser mandado para a rua.
 
Ao invés de procurar um lugar para ficar logo de cara, fui primeiro para a praia. Pensei como um carioca desta vez (sim, eu já havia ficado bastante no Rio de Janeiro). Pedalei com um sorriso em meu rosto, cumprimente algumas pessoas e conversei com outras. Fui até Ipanema e Leblon. Estava imerso dentro da beleza do dia de hoje, até que meu telefone tocou e me trouxe de volta à realidade: eu precisava encontrar um lugar para ficar.
 
Fui para o endereço que eu tinha comigo. Foi fácil, já havia uma cama para mim e logo me instalei num quarto para 8 pessoas. A partir deste momento comecei uma correria em meu dia. Precisava levar um cd com fotos para o Djalma da Sportv, mas para isso eu precisei comprar um cd, me instalar, pegar meu computador, gravar o cd e ir para o Leme. Tudo em pouco tempo, alí o encontrei na praia e aproveitei para dar um mergulho no mar e relaxar um pouco. Tudo era perfeito para eu relaxar, mas meu telefone não parava de tocar, fazendo de qualquer descanso uma tarefa dificil.
 
Quando saí de lá ainda ao telefone, já tinha novos compromissos e diversas fotos para enviar. De toda forma, separei um tempo para mim e pedalei um pouco por Copacabana, Ipanema e Leblon, inclusive vendo um protesto contra a morte de policiais, que ocorre constantemente no Rio de Janeiro (e no resto do Brasil). Parei para almoçar e depois voltei para meu hostel, onde eu sabia que tinha diversas coisas para fazer, desde gravar um dvd, responder diversos e-mails, escrever alguns textos e me programar para deixar o Rio ainda amanhã, pois queria chegar na casa de meus pais até domingo.
 
Isso ainda não foi o fim de meu dia. Meu telefone não parava de tocar e me fez ir à rua novamente, para voltar depois para o meu albergue. Já sentia o que era voltar para casa e a correria já fazia parte de meus dias, antes mesmo de acabar esta viagem. Lembrei do porque eu havia deixado meu celular para trás no começo de minha viagem. De toda forma, eu ainda estava gostando deste ritmo e correndo para lá e para cá, consegui terminar tudo no final do dia e sentir aquela sensação de dever cumprido.
 
Quinta-feira (14 de maio de 2009)
Rio de Janeiro – Volta Redonda
 
Hoje eu tinha uma entrevista no programa da Ana Maria Braga e para isso precisei começar meu dia mais cedo que o normal. Despertei às 5:30 da manhã, fechei minhas bolsas e esperei o motorista da Globo vir me pegar, juntamente com a bicicleta, para levar até o Projac, no outro lado do Rio de Janeiro, depois da Barra da Tijuca. A distância não era curta, mas como era cedo e não havia trânsito, o caminho foi fácil, rápido e iluminado pelos primeiros raios de sol que apareciam timidamente no horizonte.
 
Quando chegamos no Projac, ganhei um crachá, declarei o que eu tinha nas bolsas (regras da casa) e depois me levaram até o estudio do programa Mais Você dentro de um carrinho de golf. Passamos por todo o lugar e eu acabei conhecendo este grande local, que era realmente incrível, não por seus galpões ou atores perdidos pelo caminho, mas pela natureza da região. O Projac estava situado exatamente no meio de uma floresta e por isso mesmo gozava de um clima mais fresco e agradável que do resto do Rio.
 
Ao chegar nos camarins desse programa, montei a bicicleta, passaram um creme em meu rosto, me deram um café da manhã, me fizeram perguntas e fiquei esperando minha hora. O programa começava às 8 da manhã, mas apenas fui entrevistado no último bloco, já depois das 9 horas. Seguindo as instruções da enorme equipe do programa, eu pedalei até a casa onde o programa de Ana Maria acontece. Ela veio me receber na porta e depois entramos para conversar.
 
A conversa foi boa, ainda que curta. Tive tempo de falar o essencial e de mostrar algumas fotos de minha aventura pelo mundo. Como o programa estava próximo de seu fim, por vezes Ana Maria cortava minha resposta. Após nossa conversa ela encerrou o programa e subiu em minha bicicleta para ir embora. Por um instante achei que isto não daria certo, pois a bicicleta é pesada e ela usava salto alto, o que não combina. Ela me pegou de surpresa, mas subiu na bicicleta e realmente saiu pedalando, para meu espanto, que apenas fiquei olhando tudo.
 
O programa acabou e eu fui ajudá-la a sair da bicicleta. Como as câmeras não estavam mais filmando, aproveitamos para conversar um pouco e conversamos por, pelo menos uns 15 minutos. Conheci então esta apresentadora por detrás das câmeras e descobri uma mulher muito simpática e educada. A produção dela a chamou para gravar as chamadas do programa de amanhã e isso interrompeu nossa conversa. Era hora de eu ir embora.
 
Voltei para a bicicleta, coloquei tudo dentro da van que havia me trazido e depois fomos de volta para as ruas do Rio de Janeiro. Pedi para me levarem para o Arpoador, pois tinha uma outra entrevista alí, agora com o canal Multishow. Aproveitei o tempo que eu tinha para almoçar e descansar um pouco. Almoçar eu consegui, mas descansar era outra história. Para minha surpresa, pessoas já me reconheciam na rua e vinham falar comigo, dizendo: “não era você que estava no programa da Ana Maria Braga hoje?”. Sim era eu mesmo.
 
Acontece que eu apenas queria um lugar tranquilo, para sentar e se possível dormir um pouco, porém agora isso não era possível, pois eu não tinha mais nenhum lugar nesta cidade. Restou-me esperar no Arpoardo até a equipe do Multishow chegar. Fiquei lendo um livro, mas o que eu queria mesmo era um banheiro, pois sentia que eu havia comido algo que não havia caido bem. Não consegui o banheiro e fiquei apenas com o livro mesmo até encontrar o pessoal do Multishow.
 
Fui entrevistado por uma garota que eu imaginei ser uma modelo, devido à sua magreza extrema. Ela era bonita mesmo, mas não muito simpática. De toda forma, a intrevista fluiu bem e fui respondendo às perguntas, mostrando o que havia em minhas bolsas e dando uma pequena pedalada para finalizar. O mais curioso foi que no meio da entrevista fui surpreendido por um antigo conhecido, Argus, que havia feito uma viagem semelhante à minha anos atrás. Conversamos por algum tempo e depois voltei à entrevista, que já chegava ao seu fim.
 
Agora veio a parte mais dificil do dia: pedalar até a rodoviária. O pessoal do Multishow ainda filmou minha última pedalada e depois eu segui sozinho para o centro da cidade. Somente quando eu estava no aterro do Botafogo é que eu fui perguntar sobre como eu poderia chegar na rodoviária. Peguntei para um policial e percebi que isso havia sido a pior coisa que eu poderia fazer. O policial disse para eu pegar um viaduto, depois um tunel e outro viaduto. Era o melhor e menor caminho. Sem dúvidas ele estava certo, mas eu estava de bicicleta e quando eu perguntei se era possível fazer esse caminho numa bicicleta, ele disse que sim, pois já havia visto gente pedalando no tunel.
 
Duvidei um pouco, mas ele falava de uma forma que até parecia fácil o caminho que ele me indicava. Fui para lá então. Após algum tempo eu estava de frente ao túnel Santa Bárbara, para descobrir que aquele lugar era completamente impedalável, além de proibido para bicicletas e pedestres. Como um policial pode dar uma informação tão errada como esta? Fui obrigado a dar meia volta e pedalar pelas caóticas ruas do centro, rumo à rodoviária.
 
Em minha pedalada em busca da rodoviária eu conheci uma outra cidade. Enquanto a zona sul era tranquila, limpa e repleta de ciclovias, esta zona da cidade era o oposto: caótica, suja e impossível para uma bicicleta. Em poucos quilômetros eu havia saido da “cidade maravilhosa” e entrado numa cidade pavorosa. O mais incrível era que era a mesma cidade. Um imenso contraste! Era coma sair da Europa e ir diretamente para a Índia, em alguns minutos. Isto sim é Brasil.
 
O que importa é que cheguei à rodoviária e alí tomei um ônibus para fora do Rio de Janeiro. Não era possível pedalar em boa parte das avenidas desta cidade, devido aos seus viadutos e túneis, tudo sem acostamento e espaço para uma bicicleta. A linha vermelha (ou amarela) também não suportava bicicletas, além do perigo de passar pelo meio de uma imensa favela. Devido a esses fatores eu resolvi tomar um ônibus para fora do Rio, até algum lugar que eu pudesse começar a pedalar. Olhei no mapa e achei que Volta Redonda seria uma boa escolha. Subi então num ônibus para lá.
 
Apesar da curta distância, o trânsito pesado fez com que o ônibus levasse mais de 2:30 para chegar até lá. Por volta das 8 da noite eu estava em Volta Redonda, uma cidade grande que parecia morta, além de bastante perigosa. Encontrar um lugar para passar a noite também não foi fácil, pois havia pulgueiros horríveis e hoteis melhores, mas bastante caros. Encontrar o meio termo foi bem dificil, mas depois de mais de uma hora pedalando, eu encontrei algo. O local era simples, nada inteligente e mais caro do que deveria ser. Pela janela eu via apenas algumas ruas e as chaminés de uma fábrica, cuspindo fogo e fumaça para o ambiente. Volta Redonda era feia mesmo.
 
Após um banho, saí para encontrar algo para comer e até isso foi dificil. As ruas vazias tinham mais policiais que pedestres. Pensei estar no meio de uma guerra. Devia estar mesmo. Encontrei apenas uma lanchonete aberta e tive que me sujeitar a comer o que havia naquele local. Comi e depois voltei para o meu hotel, para apenas descansar, já sabendo que meus dias de estrada já estavam prestes a acabar.
 
Sexta-feira (15 de janeiro de 2009)
Volta Redonda – Cachoeira Paulista (117 km)
 
Acordei com o barulho de pessoas comendo o café da manhã. Era cedo ainda, mas eu já sabia que se eu não fosse comer logo, em pouco tempo não haveria mais nada para mim. Assim, antes das 7 horas, eu despertei, abri a janela para ver uma névoa branca cobrindo a cidade e uma fina garoa molhando as ruas, e fui comer meu café da manhã. Chegar à pobre mesa do café e descobrir que não havia mais nada ali além de uma garrafa com café e outra com um pouco de leite me decepcionou.
 
Fui procurar alguém para me dar algo para comer. Deveria haver alguma cozinha naquele local. Havia mesmo, mas não consegui muito mais que uns pães mirrados e um pouco de margarina para passar neles. Comi isso mesmo e depois voltei ao meu quarto para terminar de arrumar tudo e seguir viagem. Pouco tempo depois eu já estava na estrada, seguindo em direção à BR-116, mais conhecida como “Dutra”.
 
Sabia que seguir por esta estrada não seria nada muito prazeroso, porém não tinha escolha se eu quisesse visitar meus pais. Teria que encarar esta estrada repleta de caminhões até chegar em casa. Para chegar até ela, tive que tomar uma outra estrada inicialmente. Esta primeira estrada não era muito boa e quase não tinha acostamento, o que a tornava perigosa para qualquer ciclista. Caminhões passavam rápido por ali e o caminho oferecia tantos perigoso que eu não me assustei quando cheguei no alto de um morro e vi uma coluna de fumaça negra subindo dentro do azul e branco do céu.
 
Achei que fosse um acidente. Vi carros parados e gente na pista, o que me fez pensar que poderia ser grave. Conforme me aproximei por entre os veículos parados em fila, percebi que não se tratava de um acidente, mas sim de um incidente. O sindicato dos trabalhadores haviam acabado de atear fogo numa pilha de pneus e galhos, travando os 2 lados da pista. As chamas eram altas e logo à frente delas havia um pequeno caminhão com um palanque, onde sindicalistas liam seus papeis que instigavam à luta e à justiça.
 
Quase ninguém os ouvia ou estava interessado no que eles falavam. A população da região havia apenas vindo ver o espetáculo, enquanto os caminhoneiros apenas queriam ver a pista livre para chegarem logo aos seus destinos e decansarem. Eu olhava atento àquilo e buscava apenas uma forma de cruzar para o outro lado da pista, sem entrar na fogueira de pneus. Vi então alguns moradores da região entrando no meio do mato e saindo no outro lado. Fiz o mesmo e cheguei na lado que eu queria. Olhei mais um pouco aquela cena e depois fui embora, pela pista, que agora era só minha.
 
Pouco tempo depois eu já estava na Dutra, ao lado de suas centenas de caminhões. Não era das pistas mais agradáveis para se pedalar. Os caminhões eram o que havia de pior alí. A pista era boa, porém a poluição que aqueles caminhões geravam era enorme. Havia também o perigo de estar alí, pois nas diversas pontes e viadutos da estrada, o acostamento desaparecia e eu era obrigado a entrar na pista, ao lado dos gigantes.
 
O caminho todo foi assim. Caminhões, fumaça negra, barulho, trechos perigosos, sobes e desces, alguns postos de gasolina e finalmente minha parada: Cachoeira Paulista. Eu já estava no Estado de São Paulo, o que pela estrada não era possível de se perceber, mas quando eu entrei nesta pequena cidade logo vi que não estava mais no Rio de Janeiro. A cidade era mais organizada, limpa e simpática que as demais cidades por onde eu havia passado. Não havia quase nada para se fazer alí, mas o pouco que havia parecia ser bem simpático.
 
Eu havia nascido numa cidade do interior de São Paulo, no Vale do Paraíba, numa cidade não muito longe daqui e isso fazia com que eu me sentisse em casa neste local. Talvez eles fossem um pouco mais caipiras do que eu era, mas isso já me era familiar. Sabia que nunca estivera tão próximo de chegar à minha casa e calculei que pela distância eu conseguiria chegar lá amanhã mesmo. Agora me faltava pouco para dizer adeus à estrada.
 
Sábado (16 de maio de 2009)
Cachoeira Paulista – Jacareí (126 km)
 
Acordei cedo mais uma vez, apesar de saber que eu poderia ficar na cama por muito mais tempo. Hoje finalmente eu chegaria em casa, depois de mais de 3 anos fora. Saí da cama, tomei o café da manhã da pousada onde eu estava e depois fui para a pista diante do dia nublado que fazia. Ao sair para a rua, não vi pessoas correndo ou com suas bicicletas, mas até pensei que eu estava num filme de cowboys, pois muita gente estava sobre seu cavalo, saindo para dar uma volta com amigos, todos com seus chapéus de boiadeiro.
 
O Brasil tinha suas diferenças. Apenas passando por poucos Estados, eu já havia conseguido ver tantos rostos, cores, dialétos, comidas diferentes. Não é fácil falar do Brasil, pois há muitos países dentro deste espaço geográfico. De toda forma, foi com os caipiras daqui que eu nasci e por isso mesmo eu já sentia que eu havia voltado à minha terra. Faltava pouco agora. Apenas mais um dia e eu chegaria em casa, para ter o descanso que eu tanto queria.
 
Na Dutra eu continuei em frente, já suspeitando que a distância até Jacareí seria um pouco maior do que eu imaginava. Até pensei em dividí-la em 2 dias, parando na metade do caminho hoje e terminando apenas amanhã, mas resolvi tentar completar hoje mesmo. Estava cansado, mas sabia que poderia conseguir chegar ainda hoje, mesmo com um leve vento contra mim durante todo o caminho. Assim, fui seguindo e passei Guaratinguetá, Aparecida, Pindamonhangaba, Taubaté, Caçapava, São José dos Campos e finalmente cheguei em Jacareí.
 
Segui pela Dutra até Taubaté, quando eu resolvi entrar na rodovia Carvalho Pinto, onde ao menos haveria menos caminhões. Eu estava certo, mas ao mesmo tempo havia mais vento contra e mais subidas e descidas, além de não haver nenhum lugar para eu parar para comer ou beber algo. Fui pedalando mesmo assim, pensando se eu conseguiria chegar em Jacareí antes do sol se pôr. Pensei um pouco, mas decidi chegar, ainda que no escuro.
 
Meus pai me ligou e foi me esperar na entrada de Jacareí, pois como minha família havia se mudado, eu não sabia direito onde eles estavam morando agora. Quando cheguei no local combinado, vi 2 pessoas acenando para mim, era meu pai e meu irmão. Cumprimentei-os e depois coloquei a bicicleta e as bolsas dentro da caminhonete, para seguir para o sítio onde meus pais moram há quase um ano. Eu havia visto apenas algumas fotos do local, nada mais, por isso mesmo eu nem sabia onde ele fiicava.
 
Em pouco tempo já estávamos no sítio de meus pais, onde eu revi minha mãe e conheci quem eu não conhecia, como a namorada de meu irmão e os 5 cachorros da casa. Fazia frio e eu nem tive muito tempo de ver a casa. Fui para dentro e ficamos conversando por bastante tempo, até eu entrar no banho e depois ir comer a comida de minha mãe. Conversamos bastante até tarde, descobrindo que algumas coisas mudaram e outra pareciam que nunca mudariam.
 
Domingo (17 de maio de 2009)
Jacareí
 
Ainda que meu quarto não fosse meu antigo quarto e minha cama ainda não fosse minha antiga cama, dormir num lugar onde eu sabia que poderia ficar por quanto tempo eu quisesse já era algo sensacional. Sentir que esta era minha nova casa ainda levaria algum tempo, mas eu sabia que esta sensação viria. Dormi muito bem e acordei com um dos cachorros latindo no lado de fora da minha janela. Ainda não me sentia muito bem, pois nos últimos dias havia comido mal e sabia que levaria ainda algum tempo até estar melhor e para isso teria que comer bem e aproveitar a comida da minha mãe.
 
Despertei, havia um bom café da manhã na mesa, comi e depois fui conhecer a região onde eu morava, inclusive a casa onde eu estava, que eu não havia visto inteira ainda. A casa foi fácil ver, mas todo o sítio era bastante grande, com diversos galpões e construções que não estavam sendo utilizadas no momento. Havia um lago cheio de peixes, uma piscina um pouco suja e a casa do caseiro e de sua família. Tudo isso era bem diferente da casa onde eu vivia antigamente, uma casa normal, dentro da cidade.
 
Aqui era um paraíso e um lugar para descansar e não pensar em nada, porém ainda era cedo demais para eu fazer isso. Hoje sim eu poderia descansar, mas amanhã mesmo eu já tinha compromissos e aqui, onde não havia sinal para meu telefone e nem internet chegava, ficava um pouco dificil de me comunicar com o mundo. Era como se eu estivesse numa ilha aqui, o que seria ótimo para meu futuro próximo, mas não agora.
 
Após conhecer um pouco da região, almocei e alguns amigos começaram a chegar. Foi bom revê-los, alguns eu não via fazia mais de 5 anos. Caminhamos até a represa que fica no lado de minha casa e depois voltamos. Um tio meu chegou e ficamos conversando durante um bom tempo também. A esta altura já havia bastante gente em casa e todos vimos o sol baixar por detrás da montanha e o frio chegar lentamente. Era hora do café da tarde.
 
Comi, tomei um banho e fui para Jacareí, onde eu não havia ido até então. Vi minha antiga casa e depois parei na casa de um amigo. Conversamos um pouco e depois fui usar a internet, pois precisava checar alguns e-mails ainda hoje. Levei algum tempo respondendo meus e-mails e depois fui embora, voltando para casa junto com meu irmão e sua namorada. Voltamos para o sítio de meus pais e alí eu vi a semana acabar. A semana acabava e eu já me preparava para dizer adeus à estrada e encerrar esta longa jornada de mais de 3 anos. Era tempo de descansar e de novos projetos.

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