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Sexta-feira (10 de outubro de 2008)
Zadar
 
Às 7 horas da manhã, o navio parou no porto. Eu ainda estava dormindo no sofá e nem sabia direito o que estava acontecendo, apenas havia notado que todos os velhos do barco (eu era o mais jovem de todo o navio) já haviam sumido da minha frente. Achei então que já deveria ser hora de ir embora dalí. Arrumei minha bolsa e logo desci para a garagem do navio, onde minha bicicleta estava parada.
 
Quando finalmente cheguei em terra firme senti o frio e entrei numa densa névoa que cobria toda a região. Tudo era tão parado e tranqüilo que eu até achei estranho. Era tão parado que eu nem consegui encontrar a polícia para carimbar meu passaporte. Não havia guichê, uma casa nem nada, havia apenas 3 policiais na rua, aparentemente, desviando o trânsito. Fui perguntar para eles onde poderia carimbar meu passaporte e eles apenas pediram meu documento. Entreguei meu pequeno livrinho de carimbos e eles o olharam, ficaram impressionados com o fato de eu viajar de bicicleta e um deles sacou um carimbo do bolso e marcou meu passaporte. Simples assim.
 
Agora estava nas ruas de Zadar e não tinha a mínima idéia de onde ir. A idéia inicial já era pedalar hoje mesmo, mas ainda não estava certo disso, antes de mais nada eu precisa comer e ir ao banheiro. Não precisei pedalar muito para encontrar um lugar coberto e relativamente escondido, logo à beira do canal que passa pela cidade. Puxei uma cadeira que estava jogada num canto do local e fiz minha primeira refeição por alí mesmo. As vezes, alguma pessoa passava ao meu lado, mas nem sequer me olhavam ou diziam nada. Achei estranho, mas apenas não sabia ainda que os croatas são assim mesmo, não são muito abertos e não metem o nariz onde não são chamados.
 
Após comer eu resolvi procurar um endereço de um albergue em meu guia, mas não encontrei nada. Tinha que tentar na internet. Abri meu computador e incrivelmente encontrei um sinal de internet por alí. Passei então alguns minutos procurando um lugar e finalmente encontrei o que eu queria. Zadar era uma cidade bonita e parecia pedir ser conhecida. Assim resolvi ficar um dia por alí e procurar um lugar para dormir, pois queria descansar e tomar um banho ainda.
 
O primeiro lugar que eu encontrei estava perto de mim, porém não era um albergue, mas sim um hotel barato, ou seja, não tinha um dormitório, mas apenas quartos para 1 ou 2, que mesmo sendo baratos para os padrões croatas, seguiam muito caros para mim. De toda forma, o dono do local era muito simpático e me ajudou a encontrar o que eu procurava. Um pouco fora da cidade, numa zona turística, ficava o famoso Albergue da Juventude.
 
Segui para lá e encontrei o que procurava, apesar de ser um pouco mais caro do que eu queria, mesmo assim era o mais barato que eu tinha e caso eu quisesse uma cama e um banho por uma noite, teria que ser alí mesmo. A primeira coisa que eu fiz foi tomar um banho quente e depois saí para a cidade, para comer e conhecer um pouco mais do local. No final das contas, eu acabei ficando quase que o dia todo na cidade, descobrindo um pouco sobre as igrejas antigas, as ruínas romanas, do antigo porto e, também, sobre o lado mais moderno da cidade.
 
Das coisas que mais atraíram minha atenção em Zadar, foi o chamado sea organ, ou seja, um orgão do mar, tocado pelas ondas. São dezenas de tubos que vão do nível do mar até o topo da plataforma, porém dentro da plataforma, de forma que não podem ser vistos, exceto pela boca de cada um, que chega até a calçada. O movimento do mar fica responsável pelos tons e ritmos, fazendo música 24 horas por dia. O mais incrível de tudo é que realmente surge uma música interessante desse instrumento.
 
Ao lado desse inusitado órgão há uma plataforma circular feita de paineis solares. Durante o dia não dá para ter idéia alguma da utilidade daquilo. Há apenas algumas luzes na borda do círculo e nada mais. Eu próprio não entendi a utilidade daquilo, bem, melhor nao falar em “utilidade”, mas o que a tal plataforma fazia ocorria apenas uma vez por dia, logo após o pôr-do-sol, quando um imenso jogo de luz passa a desenhar formas e cores no chão, enquanto o céu parece pegar fogo ao fundo. Um espetáculo incrível.
 
Ao final do dia, quando já fazia um frio razoável, eu resolvi voltar à minha hospedagem e alí cozinhei meu jantar em meu fogareiro, já que não era permitido usar a cozinha do local. Foi apenas ao perguntar sobre a cozinha que eu logo descobri o porque do croata não ter uma fama muito boa. A maioria das pessoas aqui é fria e as que não são, costumam ser mal educadas. O porque disso eu não sei, mas imagino que seja devido à idade média das pessoas. Caminhar por aqui é sinônimo de ver velhos e mais velhos por todos os lados.
 
É inegável dizer que a Europa tem um sistema bom, eficaz e inteligente, que permite a praticamente todos seus cidadãos envelher com dignidade e tranqüilidade, mantendo um ritmo de vida normal até uma idade já avançada. Isso significa que há velhos trabalhando em todas as áreas, fazendo esporte, lendo livros, namorando, comprando viagra na farmácia e fazendo tudo o que um jovem normal faz. Isso é muito bom paras os velhos, eu prórpio quando envelhecer quero vir para cá, porém tenho que admitir que a sociedade fica muito chata. Não podemos esquecer que velhos costumam ser ranzinzas e isso faz apenas mal para a sociedade.
 
Veja bem, não estou dizendo que uma sociedade jovem seja melhor, pois as sociedades jovens são em geral estúpidas, pois não prezam o idoso, justamente aquele que tem mais conhecimento. Porém uma sociedade velha por vezes necessita daquela energia e vitalidade que apenas os jovens têm. Por isso que o equilibrio é sempre a melhor escolha. Solução para a Croácia? Parar de vender camisinhas e cortar a televisão das casas.
 
Sábado (11 de outubro de 2008)
Zadar – Prizna (81 km)
 
Apesar de hoje ser sábado, logo percebi que a Croácia sempre tem cara de domingo. Já começava e entender um pouco da Croácia. Tudo está sempre parado, quieto, tranqüilo e vazio. Não posso reclamar, por vezes parece o paraíso, tão tranqüilo que é. De toda forma, independente do dia da semana que era, começaria minha pedalada hoje mesmo, sentido Eslovênia que estava a quase 300 quilômetros de mim ainda. Quando despertei em meu quarto, que eu dividia com um jovem poeta americano chamado Michael Roberts, que havia recentemente publicado seu primeiro livro e me dado um exemplar, o escritor já havia ido embora e deixado seu livro para mim sobre a mesa.
 
Olhei o livro, li a dedicatória e pelo menos isso eu consegui entender, pois o resto, a poesia do americano simplesmente não tinha pé nem cabeça. Mas tudo bem, encarei aquilo como arte ou algum tipo moderno de poesia e coloquei o livro em minha bolsa. Fui então tomar o café da manhã e depois voltei ao meu quarto para arrumar tudo e deixar a cidade o mais breve possível.
 
Logo saí da hospedagem e segui para a estrada, que ainda levei um tempo para encontrar, mas no final das contas cheguei onde queria. Não queria pedalar pelo continente, minha intenção era seguir pelas ilhas da Croácia, que impreguinam todo o litoral montanhoso do país. Assim, logo segui para a ilha de Pag, que de tão próxima do continente é ligada a ele por um pequena ponte apenas. Esta ilha era curiosa, apesar de quase toda a Croácia ser verde, esta ilha era praticamente toda seca e deserta.
 
Um dos motivos de eu ter escolhido ir pela ilha era o relevo. Havia olhado um mapa topográfico da região e constatado que a ilha tinha menos montanhas que o continente. Mesmo sendo menos motanhoso, não queria dizer que seria sem montanhas. Logo que entrei nas ilhas, montanhas já surgiram, mas foi somente após cerca de 50 quilômetros que a situação ficou difícil. Até então, as montanhas eram pequenas e a paisagem simplesmente de tirar o fôlego. Em relação à paisagem não posso dizer nada, a Croácia é um país maravilhoso.
 
Até a principal cidade da ilha, o caminho foi bem, pequenas montanhas e apenas uma estrada. O problema foi depois da cidade de Pag, a maior da ilha. Logo tive que escalar uma imensa montanha, o pior, sem saber se estava na direção certa ou não. Nem mesmo sabia se haveria uma balsa no final da ilha, para me levar até o continente, apenas acreditava em meu mapa que dizia que sim. Segui em frente então entre altos muito altos e baixos bem baixos.
 
Por volta das 4 horas cheguei no porto, da onde sairia a balsa para o continente. Logo o barco chegou, porém demorou quase uma hora para sair e fez com que eu mudasse os planos de minha viagem. Os dias já estão mais curtos nesta época do ano e o frio não demora a começar, por volta das 5 da tarde já há um frio razoável, e lá pelas 6 e 7, o frio já pega pesado. Dessa forma, resolvi apenas fazer a travessia e ficar logo na primeira vila do caminho, que aparentemente ficava ao lado da onde a balsa irira parar.
 
A viagem foi curta, cerca de 20 minutos e a balsa parou num lugar pouco habitado. Ao lado dalí havia algumas casas, mas quando eu fui ver, logo percebi que deveria se tratar de um vilarejo de verão, pois quase todas as casas estavam fechadas, assim como as pousadas e hoteis. Mercado também não havia, enfim, não havia nada alí. Não havia motivo lógico para ficar alí, mas se eu fosse embora, logo o frio e a noite me pegariam e acabariam comigo. Teria que ficar por alí mesmo. Fui então a procura de um lugar para dormir e logo vi uma casa em construção, um de meus lugares favoritos para passar a noite. Entrei alí, averiguei a situação e constatei que o lugar estava limpo e vazio. Não haveria problemas em dormir alí por uma noite. Mas antes teria que conseguir água.
 
Pedalei um pouco até que encontrei uma casa habitada. Pedi então água potável para o casal de velhinhos. O sujeito fez uma cara estranha, mas me deu a água que eu queria. O problema foi que eu sabia que aquela água não seria o suficiente para aguentar até amanhã. Precisava beber, cozinhar, escovar os dentes e seguir amanhã ainda. Precisava de mais água. Voltei então para o porto da balsa e alí encontrei um bar sujo, que vendia apenas cerveja. Perguntei se havia água e o sujeito me mostrou apenas uma garrafa, que ele disse sem de consumo próprio, por isso mesmo, ele enfiou a faca em mim, me combrando 3 vezes mais que o preço normal.
 
Pensei um pouco, mas não havia saída. Paguei e levei a água embora. Agora tudo estava pronto. Logo cozinhei meu jantar, comi, escovei os dentes, montei minha barraca, minha cama e pronto, tinha minha casa montada por uma noite. Logo caí no sono, mas como sempre um daqueles sonos que nunca se aprofundam muito. Qualquer som é capaz de te despertar. Apesar de estar no lugar mais tranqüilo do mundo, acordei mesmo assim, desta vez com alguém batendo nos tijolos da casa. Não sei quem era, nem o por que de estar fazendo isso, mas apenas sei que acordei e não consegui dormir até parerem de bater. Somente quando o silêncio voltou é que eu dormi novamente.
 
Domigo (12 de outubro de 2008)
Prizna – Rijeka (129 km)
 
Acordei às 7 da manhã com meu despertador. Havia me esquecido que era domingo, já que na Croácia todo dia parece domingo, caso contrário teria dormido um pouco mais. De qualquer maneira foi bom acordar e ver o sol nascer e ter tempopara fazer tudo o que e queria. Logo desmontei minha barraca, tomei meu café da manhã e subi na bicicleta para seguir meu rumo para a cidade Rijeka, que ficava longe de onde eu estava.
 
O caminho de hoje não foi fácil. Começou com uma subida de mais de 10 quilômetros, que me levou no nível do mar até o alto da montaha que ficava atrás de mim. Pior que isso, até chegar na cidade de Rijeka, eu baixei e subi montanhas semelhantes mais umas 3 vezes. Creio que a última foi a pior de todas, me fazendo descer toda a montanha e depois subir ela toda mais uma vez e finalmente descer até a cidade de Rijeka, que era somente alto e baixo. Creio que nunca havia visto uma cidade assim, construída sobre tantas montanhas.
 
Quando cheguei na cidade, com uma sensação de dever cumprido, eu logo percebi que ainda me faltava o que fazer. A cidade estava toda fechada, pois era domingo e eu ainda queria encontrar um lugar para ficar. Perguntei para um ciclista que passava e ele me levou até um albergue da juventude, o único albergue da cidade e consequentemente o lugar mais barato para se passar uma noite. O problema é que mesmo sendo o mais barato ele me custaria 20 Euros!
 
Nem em Roma, nem na Grécia, nem em nenhum lugar havia um lugar tão caro assim. O lugar era bom, sim, mas não havia um porque de ele ser tão caro e é claro que se você precisar da ajuda do croata pode esquecer. Não deveria ter ficado alí, poderia ter acampado no outro lado da rua, num parque que havia, porém queria um banho e descanso apenas, após o longo dia que eu havia tido.
 
Aceitei pagar. Até me lembrei que uma vez troquei e-mails com um amigo no Brasil, um desses que nunca saiu do Brasil, e ele me disse: “pelo menos há albergeues da juventude por toda a parte e eles custam bem baratos, como 5 Reais”. Quem dera ele estivesse certo. Hoje por exemplo, pagando 20 Euros, eu não desembolsei menos de 60 Reais, para dividir meu quarto com mais 4 pessoas!
 
Depois de um banho quente queria usar a internet, mas descobri que no hotel não havia internet, estava quebrada. Paciência. Mesmo pagando tudo isso, nem internet eu tinha. Vergonha. Fui obrigado à sair à rua para sentar-me na calçada, ao lado de um hotel 4 estrelas para roubar o sinal de internet dele. Fiz algumas coisas alí, mas não tudo, pois não dava. Até mesmo jantar foi difícil, já que não havia nenhum supermercado aberto e quase todos os restaurantes da cidade estavam fechados.
 
Pelo final da noite, já havia comido numa lanchonete e feito o que eu queria na internet, me faltava apenas dormir, o que eu mais precisava.
 
Segunda-feira (13 de outubro de 2008)
Rijeka – Postojna (Eslovênia) (80 km)
 
Até gostaria de ficar mais uma dia na cidade, especialmente para descansar, já que havia maltratado minhas pernas ontem, mas sabia que não daria, especialmente pelo preço da hospedagem onde eu estava, que era justamente a mais barata da cidade. Seria melhor eu seguir em frente, acreditando que encontraria algo melhor na Eslovênia. Antes de qualquer coisa, eu tomei meu café da manhã na hospedagem, enchi a barriga e depois fui embora.
 
Logo me perdi nas ruas sem nexo de Rijeka, que para completar eram apenas sobe e desce. Depois de alguns quilômetros percebi que estava indo na direção contrária à que eu queria. Voltei então e cheguei ao centro, onde eu aproveitei para ver um pouco da parte antiga da cidade antes de ir embora. De toda forma, não precisei andar muito para ver o que eu queria. E assim, fui para a estrada, seguindo as placas confusas que me guiavam para algum lugar.
 
Mesmo sem ter certeza de onde eu estava indo, sabia que estava apenas subindo. E continuei subindo. Subi por certa de 50 quilômetros sem parar. Justamente após essa distância cheguei à fronteira com a Eslovênia e voltei à União Européia. Alí o relevo melhorou um pouco, ficando plano e dando um leve descanso para minhas pernas, já cansadas de tanta subida.
 
Apesar desse descanso, logo as subidas voltaram e voltaram com tudo, para a minha tristeza. Mesmo assim continuei pedalando sabendo que cedo ou tarde eu chegaria na cidade que eu queria, chamada Postojna, famosa por ser o local onde está uma das maiores cavernas da Europa. Não estava errado, levei algum tempo, mas cheguei onde eu queria, mesmojá sendo tarde, quase noite.
 
A cidade parecia bastante agradável, como a Eslovênia em si, o lugar mais tranqüilo e bonito que eu já vi até hoje. Antes eu achava que era a Croácia, mas vi que estava enganado. O país é formado por montanhas e estas montanhas são completamente forradas por uma densa floresta, que já começa a ficar marrom alaranjada nesta época do ano. A estrada, vilarejos e cidades, parecem surgir em meio a estas florestas e parecem estar em harmoniza com elas.
 
Parecia um lugar perfeito mesmo, mas desta vez com ainda mais idosos que na Croácia. A Eslovênia parecia nem ter jovens. Comecei até a achar que as crianças já nascem velhas aqui, pois não era possível. De toda forma, logo que eu entrei na cidade comecei a procurar um lugar para passar noite. Meu guia falava de um lugar barato, mas logo descobri que esse lugar não era tão barato assim, pelo contrário, custa o dobro do preço que o guia dizia.
 
Sem muitas opções eu fui para uma escola que me indicaram, onde havia quartos para viajantes também. Alí sim esncontrei o que buscava. Um quarto simples, apenas para mim e por um preço razoável. Não podia ser melhor. Instalei-me então e saí para comprar algo no supermercado, antes de tomar um banho e cozinhar meu jantar, para então desmaiar na cama, marcando o fim de meus dias croatas e o início de minha passagem pela pequena Eslovênia.

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