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Segunda-feira (13 de agosto de 2007)
Dhanbad (travado pela chuva)
 
Acordei tarde. Estava com dor de garganta e minhas roupas molhadas que não haviam secado já começavam a produzir um cheiro não muito agradável. O meu quarto não tinha janela e eu não tinha nem idéia se a chuva havia parado ou não. Sai do quato e fui até a sacada do hotel, olhei para a rua: alagada, olhei para o céu: negro, olhei para os prédios: mofados.
 
Pensava em pedalar hoje, mas com este tempo eu não me arriscaria. Assim, fiquei quase o dia todo no hotel vendo alguns programas na tv e escrevendo alguns textos no computador. Apenas quando a chuva diminuiu um pouco eu consegui emprestar um guarda-chuva e ir até uma mercearia para comprar água e alimentos.
 
O dia foi monótono e cinza como o céu que cobria toda a cidade.
 
Terça-feira (14 de agosto de 2007)
Dhanbad – Barhi (119 km)
 
Despertei cedo e percebi que a chuva estava muito fina e as ruas não estavam mais alagadas. Achei que seria possível pedalar hoje e seguir na direção de Gaya, uma cidade mais turística e com mais facilidades, porém a uma distância que eu precisaria de 2 dias para percorrer.
 
Arrumei tudo e fechei bem os meus alforjes para que não entrasse nem uma gota d’água neles. Tomei um rápido café da manhã e saí para a rua. Neste intervalo de tempo a chuva havia parado e eu comecei a pedalar para sair da cidade a caminho da estrada. Quando cheguei na estrada o asfalto estava quase seco, com algumas poças d’água no acostamento apenas. Desviando da água e tomando cuidado com os caminhões que passavam perto de mim eu segui pela rodovia que não estava muito movimentada.
 
Não havia nenhuma grande cidade pelo caminho e eu sabia que minha parada não seria muito próxima desta vez. A temperatura estava mais amena e me ajudou a não transpirar muito, fazendo com que o estoque de água que eu levava comigo durasse um pouco mais e não acabasse no meio do caminho.
 
Quando eu já havia poedalado cerca de 60 quilômetros sem ver nada na estrada, uma leve chuva voltou, mas eu resolvi não parar. Apenas vesti meu casaco de chuva e continuei em frente. A chuva parou alguns minutos depois e eu aproveitei para descansar um pouco, já que a distância de hoje não era muito pequena. Comi uns doces que trazia comigo e continuei pedalando. Quando cheguei aos 100 quilômetros já me sentia um pouco cansado, mas sabia que teria que seguir um pouco mais para conseguir chegar a algum lugar.
 
Foram mais alguns mais-largos-que-o-normal quilômetros de estrada e eu cheguei a uma pequena cidade que eu não consegui descobrir o nome, mas o meu mapa mostrava Barhi.  Apesar de pequeno, este vilarejo tinha pelo menos algumas hospedagens, nenhuma boa, todas nível Hotel Maria ou pior. Pelo menos havia um lugar para ficar, me proteger da chuva e me livrar dos indianos que se aglomeram em torno de mim apenas para “olhar”.
 
Na verdade, fora o fator limpeza, hospedagens não faltam por toda a Índia. Vale lembrar que o indiano é um tipo de pessoa que viaja constantemente, tanto que os ciganos espalhados pelo mundo são de origem indiana, o que resulta em alojamentos e hospedagens (chamados Dharamsala) por toda a parte e na beira de qualquer estrada. Entretanto as condições não constumam ser boas e por vezes um cubículo sujo e escuro com um papelão ou palha cobrindo o concreto negro de sujeira recebe o nome de “hotel”.
 
Entre o que há de pior no mundo das hospedagens eu escolhi o melhor. Um cubículo sujo, mas pelo menos alí estava protegido da chuva, que ainda caía sem dar avisos prévios. Havia pensado em montar minha barraca, mas o fator chuva me fez repensar essa idéia. Acampar na Índia pode, por vezes, ser melhor que se alojar numa espelunca como a em que eu fiquei hoje, mas na estação das chuvas, só se você tiver um híbrido de barco e barraca, além dos milhões de indianos curiosos que vão cercar sua barraca e apenas olhar para tudo, tocar tudo e parar o que estão fazendo para assistir a você fazer qualquer coisa.
 
Resignei-me ao quarto pequeno e sujo, porém seco. Cozinhei um macarrão dentro do quarto mesmo e depois de comê-lo cai na cama, cansado, sem forças nem para pensar muito.
 
Quarta-feira (15 de agosto de 2007)
Bahir – Bodhgaya (78 km) (60 anos de independência da Índia)
 
Acordei dentro do meu espartano quarto, o qual não era um convite à minha permanência alí, e logo comi algumas bolachas e fiz um chá para mim. Depois de um breve alongamento e uma pequena meditação, o que é algo quase que necessário na Índia, eu voltei para a estrada. Sabia que hoje a pedalada seria mais curta e eu chegaria a um lugar mais agradavél, turístico e famoso – o local onde Buddha atingiu o Nirvana ou a iluminação.
 
Hoje, além de ser o aniversário de meu pai, é o dia da independência indiana que completa apenas 60 anos. O resultado disso, foi uma grande movimento nas estradas, com muitos turistas, peregrimos e bandeiras da Índia em todos os veículos. Havia um clima de festa até mesmo na estrada e com uma bandeira indiana que me deram eu segui pela estrada sem muitas casas e vilas pelo caminho.
 
Depois de 60 quilômetros eu cheguei à bifurcação que eu queria, agora estava a caminho de Bodhgaya. A estrada em que eu entrei era menor, bastante ruim e sem sinalização alguma. Apenas soube que estava na direção certa depois de perguntar o caminho algumas vezes para os indianos, que costumam ser bons em direção, exceto esquerda e direita, que eles nunca vão conseguir acertar.
 
Foram mais 20 quilômetros e finalmente a pequena vila turística de Bodhgaya. Antes mesmo de eu descobrir que já estava onde queria havia algumas crianças me seguindo com suas bicicletas e pedindo desde dinheiro a dar uma volta em minha bicicleta. Não ganharam nem um nem outro, pois depois de qualquer pedalada na Índia não há muita paciência remanescente para muita conversa.
 
Foi assim, já sem muita paciência que eu resolvi ficar no lugar menos comercial de todos, no Monastério Butanês (do Butão). O lugar tinha alguns quartos para viajantes e o melhor, uma paz sem igual. Um pouco afastado do centro da cidade as buzinas não chegavam até lá e apenas o canto dos pássaros alegravam a paz do enorme jardim que envolvia todos os quartos. Não havia quase nenhum viajante por alí e poucos monges também. Não tive dúvidas, alí era o meu lugar.
 
Com um enorme e bastante limpo quarto só para mim eu tomei um banho e logo saí para conhecer um pouco da cidade, que tinha dezenas de monastérios, além do principal centro de peregrinação budista do mundo, o Mahabodhi Temple. O templo foi construído na região onde o príncipe Siddhartha Gautama ou Buddha permaneceu por semanas, depois que saiu de sua caverna, até chegar ao Nirvana.
 
O local atrai não só budistas, mas gente de todas as religiões. Apesar de nada da época de Buddha ter sobrevivido ao tempo, a agradável atmosfera continua presente no ar. Há diversos pontos importantes nesse pequeno local. Desde do lugar onde Buddha sentou para meditar e uma seperte surgiu para o cobrir, a onde ele caminhou em meditação por uma semana, até a figueira onde ele se sentou debaixo para finalmente chegar até o Nirvana.
 
A fiqueira atual é descente daquela que abrigou Gautama centenas de anos atrás. A original foi morta pela esposa do imperador Ashoka, quem cosntruiu o templo Mahabodhi e dedicou sua vida ao budismo. No entanto, antes da morte da árvore, uma muda havia sido levada para Anuradhapura, no Sri Lanka, pela filha do emperador Ashoka. Assim, uma muda desta árvore que existe até hoje, foi levada de volta para Bodhgaya e plantada onde estava a original.
 
Apesar do grande número de visitantes este é um local muito agradável onde é possível permanecer por todo um dia. Depois de algumas horas, me sentindo mais leve, eu voltei para o meu monastério e fui até a casa do vizinho – um monastério japonês de Zen Budismo, que oferece gratuitamente cursos de meditação às 5 da manhã e às 5 da tarde. Fui para a meditação das 5 da tarde para escutar os japoneses e tentar me tranquilizar após uma hora em silêncio e mantras.
 
Ao sair do monastério encontrei o que há em abundância neste vilarejo: crianças pedindo dinheiro. O pretexto é dinheiro para livros ou qualquer material escolar, assim os turistas vão até o local que a criança o leva e compra o que ela pediu. O que ele não sabe é do trato que o infante tem com o vendedor do material, assim que o forasteiro vira as costas o pequeno pedinte devolve o equipamento e leva uma porcentagem do dinheiro. Essa forma de vida é tão lucrativa que todas as crianças que a adotam nem para a escola vão. Resultado, quem “patrocina”o estudo de uma criança está apenas fazendo mais um analfabeto.
 
Uma situação difícil, mas tipicamente indiana. Já que na Índia não se pode deixar ser guiado pelas aparências – mesmo porque este é o país com pior aparência que eu já vi – eu resolvi não dar nenhum centavo para ninguém. Há exceções é claro, mas via de regra não dou nada para essas crianças e nem para as mulheres com bebês nos braços. Essas crianças que são mais espertas que o normal, logo percebem que comigo não vão ganhar nada e dão no pé. E se elas não vão embora sozinhas, quem vai embora sou eu.
 
O dia foi ótimo e apesar do tempo ruim a chuva já havia parado, o que poderia me ajudar a conhecer um pouco mais da região amanhã.
 
Quinta-feira (16 de agosto de 2007)
Bodhgaya
 
Apenas descansei sob o silêncio do jardim onde eu estava instalado. Acordei sem olhar para o relógio e quando abri a porta do meu quarto havia esquilos e pássaros brincando no jardim. Nem parecia que eu estava na Índia. Havia encontrado a paz que eu precisava, porém não poderia viver dentro do monastério. Se quisesse ver o mundo teria que encarar o que ele tem para oferecer, das belezas aos horrores.
 
Decidi então pedalar até a montanha onde Buddha ficou em reclusão por cerca de 6 anos, realizando práticas extremas de mortificação. Nessa montanha está a caverna onde ele se escondeu. A pedalada não era muito longa, apenas 20 quilômetros até lá, mas seria melhor pedalar rápido, caso contrário, dezenas de crianças-que-fugiram-da-escola poderiam me seguir.
 
Depois de me perder algumas vezes eu consegui chegar na montanha. Alí já havia uma rampa até o templo localizado na entrada da famosa caverna, chamada Dungeshwari. Não havia quase ninguém por alí, exceto alguns monges que tomavam conta do monastério do local. Há 2 pequenos e simples templos e entre eles está a pequena caverna, onde só é possível entrar agachado. Dentro dela uma imagem de Buddha em estado de mortificação.
 
Da caverna era possível ter a visão de toda a região, que seria mais bonita caso o tempo não estivesse tão ruim, deixando uma névoa branca constante por toda a planície. O tempo estava tão ruim que quando eu voltava para Bodhgaya começou a chover, mas para a minha sorte logo parou e quando eu parei de pedalar, já estava seco.
 
Em Bodhgaya eu resolvi conhecer todos os templos e monastérios da pequena cidade, já que todos os países budistas do mundo tem o seu templo ou monastério por lá. Vi o templo chinês, tibetando, japonês, tailândes, vietinamita, birmanês e mais algumas construções, como uma enorme estátua de Buddha e alguns prédios antigos da cidade.
 
O dia já estava acabando e eu tinha que deixar tudo pronto para seguir em frente ainda amanhã, para a capital do Estado de Bihar, Patna. Ao conversar com algumas pessoas, descobri que havia uma cidade muito interessante perto da onde eu estava, chamada Rajgir e eu poderia mudar minha rota para Patna, para visitar também esta cidade. Parecia uma boa idéia e eu decidi mudar meu trajeto para visitar esta pequena cidade.
 
Sexta-feira (17 de agosto de 2007)
Bodhgaya – Rajgir (78 km)
 
Eu já era uma celebridade em Bodhgaya e quando eu saia do monastério os monges vieram se despedir de mim e na rua, diversas crianças e vendedores vieram me desejar boa sorte, algumas deles até me dando algumas lembranças. Segui então para Gaya, cidade grande que estava a 12 quilômetros ao norte da pequena Bodhgaya.
 
Gaya é uma cidade de ruas estreitas e carregadas de lixo, o que faz de qualquer movimento dentro destas ruas uma atividade difícil, demorada e muito barulhenta. Depois de encarar um congistionamento que não perdoa nem bicicletas e perder um bom tempo eu consegui chegar na estrada rumo a Rajgir, a qual era mais tranqüila e eu consegui desenvolver uma velocidade constante até Rajgir.
 
Esta cidade foi uma surpresa. Uma surpresa ruim. Há um um importante sítio arqueológico na região, onde floreceu um império milhares de anos atrás, porém hoje quase não se vê muita coisa, já que as ruínas são poucas e em péssimo estado de conservação. O que eu descobri é que as ruínas não são a maior atração da cidade, mas sim o fato de haver uma passagem no épico Mahabharata que se passa nesta cidade. Isso atrai milhares de peregrinos, especialmente no mês de agosto, quando os devotos de Shiva viajam aos milhares para visitar os lugares sagrados.
 
Havia milhares de shivaístas na cidade, todos vestidos de laranja e vivendo dentro de um carro ou ônibus. O resultado disso foi quase todos os hotéis cheios, mesmo com a maioria dessas pessoas dormindo dentro dos ônibus, carros e até mesmo no chão. Por sorte consegui um quarto num hotel de 3ª categoria da cidade e me instalei por alí mesmo, já prevendo que a chuva não tardaria a cair. Saí então para conhecer alguns lugares interessantes e cheguei até a um teleférico que levava centenas de pessoas até o alto de uma das montanhas que cercam a cidade.
 
Sentei na cadeira e fui para o alto também. No topo, além de vendedores de artigos religiosos, devotos e macacos, havia um belo templo budista japonês. A vista seria incrível se a umidade do ar não estivesse alta ao ponto de deixar toda a paisagem branca. Fiquei alí em cima por alguns minutos, tirando foto dos indianos que posavam para minha câmera e tentando conversar com eles que apenas falavam hindi.
 
Quando eu desci, percebi que a chuva não iria mais esperar para cair. Estava certo, quando eu estava a caminho do centro de Rajgir a chuva caiu de uma vez só. Não havia abrigo algum naquele momento e em questão de segundos eu já estava completamente molhado. Logo em seguida a chuva parou e diversos abrigos surgiram, mas já era tarde, apenas queria um banho quente agora e comer, para amanhã mesmo sair deste sujo vilarejo.
 
Sábado (18 de agosto de 2007)
Rajgir – Patna (107 km)
 
A noite não foi das melhores. O quarto era quente e havia um rato dentro dele. Creio que o pequeno rato era morador antigo do local, pois sempre que eu o via ele desaparecia um segundo depois e era simplesmente impossível encontrá-lo. O jeito foi dormir com o rato mesmo. Quando acordei, percebi que a chuva que havia começado na noite de ontem ainda não havia parado e parte da cidade já estava alagada.
 
Também sabia que se eu quisesse pedalar não seria fácil, pois teria que encarar a chuva e diversos pontos alagados. Apesar da dificuldade eu não quis nem saber, ficar em Rajgir seria sem sombra de dúvidas a pior escolha. Comi algumas bolachas e fatias de pão de forma e fui para a estrada. Estava chovendo e eu preferi não usar minha jaqueta a prova d’água, que no calor costuma ser pior que ficar na chuva.
 
Resolvi pedalar rápido para manter o corpo aquecido e assim fui embora. Coloquei uma máscara para que aquela água negra não voasse em minha cara e segui em frente sem me importar com a chuva. O ponto mais forte da chuva foi quando eu cheguei me Nalanda, onde Buddha passou um considerável tempo de sua vida e fundou uma universidade budista, considerada por muitos a universidade mais antiga do mundo.
 
Se eu não estivesse debaixo de um temporal eu até veria a universidade, mas tive que admitir que seria impossível com o tempo que fazia. Assim, deixei essa atração de lado e segui em frente. A água continuou a cair por mais 2 horas. Depois parou e para a minha surpresa, surgiu o sol, o que eu não via desde que havia voltado de Bangladesh. Era um ótimo sinal, poderia ser o fim das pesadas chuvas que alagaram toda esta região.
 
Não precisei pedalar muito mais para atravessar cidades que estavam debaixo d’água. Algumas delas com as ruas alagadas, outras, completamente debaixo de água, podendo apenas ver metade das casas para fora da água. Talvez os noticiários não estivesem assim tão equivocados. Continuei seguindo em frente e finalmente cheguei em Patna, uma das maiores cidades deste Estado, que é o mais pobre da Índia.
 
Apenas consegui me localizar na cidade porque conheci um homem que levou até o centro da cidade e lá eu encontrei hoteis e algumas facilidades. Logo me entrei num quanto limpo e depois saí para comer e comprar comida para levar comigo em minhas próximas paradas, que me levariam até o Nepal, que já estava próximo.
 
Domingo (19 de agosto de 2007)
Patna
 
Resolvi ficar mais um dia nesta cidade para ver um pouco mais dela e tentar atualizar o meu site também. Pela manhã eu pedalei pelas ruas imundas de Patna e descobri que não há muitos pontos de interesse por aqui, apenas alguns pobres museus e templos. Nada muito chamativo, pelo contrário, na maioria das vezes quase cobertos pelas montanhas de lixo que tomam conta das ruas da cidade, que até pouco tempo estava debaixo d’água devido às fortes chuvas que atingiram o norte da Índia.
 
Ao voltar para o meu hotel eu almocei e então resolvi correr para atualizar o meu site, o que não seria fácil, diante do volume de textos que eu havia deixado acumular nos últimos dias. Eu tinha que tentar, mesmo sabendo que com o único lugar que oferecia uma boa conexão de internet fechava às 10 da noite. De toda forma eu fiz o melhor que pudia, mas ao cair da noite tive que admitir para mim mesmo que seria impossível terminar tudo ainda hoje.
 
Cheguei até a cogitar a possibilidade de ficar mais 1 dia em Patna, somente para finalizar as atualizações e enviar alguns e-mails. Pensei bem. Não valia a pena. Estava perto do Nepal e a Índia é um lugar que não me convida a ficar num só lugar. Todos os lugares são horríveis e sujos, quando muito, suficientes para apenas uma noite e nada mais. Patna, capital do Bihar, era melhor que a média, mas mesmo assim não o suficiente para deixar alguém confortável.
 
Já havia passado da meia-noite e eu havia decidido não ficar em Patna e deixar as atualizações que eu tinha que fazer para a amanhã ou para quando eu encontrasse um conexão de internet.
 
Segunda-feira (20 de agosto de 2007)
Patna – Muzaffarpur (76 km)
 
Foi difícil despertar cedo. Permiti-me mais alguns minutos na cama do abafado quarto antes de levantar e iniciar o meu dia preparando o meu próprio café da manhã e fechando as minhas malas. Haviam me dito que a estrada para o Nepal não estava boa e que seria bastante difícil para mim. Não quis saber. Paguei para ver. Olhei no mapa o meu destino: Muzaffapur. Coloquei 3 litros de água na bicicleta e perguntei como eu chegava na estrada.
 
Parecia simples. Segui em frente. Subi a ponte. E parei. Simplesmente não dava para seguir em frente. Estava tudo parado por quilômetros. Não só carros, mas também motos, bicicletas e até mesmo pedestres, já que aqui não há calçada e todos são obrigados a dividir o mesmo espaço na rua. Eu não conseguia acreditar naquilo, o pior congestionamento que eu já havia visto. Lembrei de como as pessoas reclamavam do Brasil – eu inclusive – e percebi que ninguém sabe de nada até ter vindo para a Índia.
 
Eu não havia pedalado mais que 1 quilômetro e já estava estressado com o trânsito indiano. Além de tudo estar travado, todos buzinam sem parar e ainda tentam ultrapassar os outros, o que é impossível. O resultado foi um grande tumulto, com todos encostando em todos e dando aquele “empurrãozinho” para ajudar. Pensei que não consegueria começar minha pedalada de hoje, mas depois de 40 minutos, eu consegui sair da multidão e começar a pedalar.
 
Isso não foi o fim dos problemas, pelo contrário, foi só o começo. O trânsito seguia horrível, fluindo um pouco, mas ainda horrível, ao bom estilo indiano. Ninguém respeita ninguém! Aqui é cada um por si e ponto final. Se você tem a imagem de que o indiano é uma figura amável e carinhosa você está enganado, o típico indiano nem liga para você. Você pode ter sido atropelado no meio da rua que o indiano vai apenas buzinar o mais alto que ele puder para você morrer em outro lugar.
 
É cada um por si, menos quando quem está travando o trânsito é uma vaca. A vaca sim pode ficar no meio da rua, de uma avenida ou de qualquer estrada. Ela é uma vaca oras! E merece respeito. Eu as vezes custo a acreditar que eu estou pedalando aqui. Isto aqui é o inferno para qualquer ciclista. Não há motorista pior que o indiano. Eles vêm exatamente para cima de você, nem que para isso tenham que entrar na contra-mão – o que eles adoram fazer, diga-se de passagem -, e te jogam para fora da pista, sem dó.
 
Percebi que não seria fácil este caminho. Outro ponto é que não há sinalização nas ruas e estradas daqui. As ruas não têm nome e as estradas não sabem o que é qualquer tipo de sinalização. E ainda por cima sou obrigado a ler nos para-choques dos caminhões: My India is Great (“Minha India é Incrível”). Depois de alguns quilômetros percebi que estava no caminho errado e tive que voltar 2 quilômetros para entrar no caminho certo.
 
Agora era hora de atravessar o Rio Ganges, o rio mais famoso e sagrado da Índia. Deixando as crenças hindus de lado, o Ganges ou Ganga, como eles dizem por aqui, é apenas mais um rio, grande, mas apenas mais um grande rio. Tão grande que a ponte para atravessá-lo tinha 12 quilômetros de extensão. E atravessar essa ponte não foi nada fácil, graças ao forte vento lateral que fazia e reduzia a minha velocidade pela metade.
 
Quando estava no meio da ponte pensei:  aqui quase não há indianos, vou parar, comer alguma coisa e depois sigo em frente. Que tolo que eu fui. Há indianos em toda a parte, isso é regra, assim como eles vão parar o que estão fazendo para apenas te olhar, sem dizer uma palavra (nem mesmo um hello ou namastê) e quando dizem, se não é em hindi, é algo como: what’s your name please? Where are you from? Depois eles apenas continuam o mais importante, te observar.
 
Parei na ponte. Em menos de 5 minutos já havia mais de 10 indianos alí. Não diziam nada, nem mesmo respondiam quando eu os cumprimentava. Tenho que admitir que eu odeio isso, mas não é possível fazer nada. Eles parecem ser treinados para ser chatos! E eles conseguem. Eu então fui uns cinqüenta metros para frente na esperança de me livrar deles. É claro que eles me seguiram. Pensei em me jogar da ponte, mas me contive e subi na bicicleta para continuar meu caminho.
 
Logo a ponte acabou, o vento voltou ao normal e eu me perdi novamente. Por sorte estava com meu GPS ligado e percebi quando a bússola começou a apontar para a direção contrária. Achei estranho e perguntei. Havia perdido 5 quilômetros e nem havia visto a entrada da estrada que eu tinha que tomar. Voltei e e entrei na pista certa. Nada como um dia nas estradas indianas.
 
Não demorou muito para eu começar a ver que toda a região estava alagada. Tudo mesmo, casas, escolas, hospitais e tudo mais. Parecia que desta vez era verdade. As pessoas haviam montado barracas na beira da estrada até que a água baixasse. Inicialmente eu não tinha idéia que todo aquele gigantesco rio e inúmeros lagos eram frutos das chuvas recentes. Pensava que eles faziam parte da região até então, mas logo percebi que não.
 
Em pouco tempo eu também descobri que as estradas também haviam sido afetadas. Tive que percorrer alguns trechos de estrada que estavam completamente debaixo de uma água suja e negra, mas não muito alta. O problema foi que ao passar por uma dessas regiões alagadas eu percebi que o meu pneu traseiro começou a esvaziar. Justamente alí, no meio da população vivendo na beira da pista e depois de ter entrado na sujeira com a bicicleta.
 
Fui obrigado a parar. Deitei a bicicleta. Olhei para o pneu traseiro e percebi que o que havia de mais limpo nele era cocô de vaca. E agora eu não tinha escolha, teria que colocar a mão alí. Tirei as minhas luvas e coloquei a mão no pneu. Percebi que o problema estava no pneu, que eu trago comigo desde a Argentina. O pneu estava velho e seco e agora estava abrindo e num desses rasgos a câmara furou.
 
Teria que trocar a câmara e também o pneu. Nem havia começado a troca e já havia mais de 20 indianos em volta de mim, alguns tão perto que até encostavam em minhas costas e pernas. Por sorte tinha um par de pneus reserva, mas eles estavam escondidos em minhas malas. Tive que abrir 2 malas e tirar tudo de dentro delas para o delírio dos indianos que se deliciavam com o turista se apresentando para eles.
 
Com tudo em mãos a troca foi rápida. Câmara nova, pneu novo e pronto. Quando finalizei a troca olhei ao meu redor e já havia mais de 50 indianos! Havia motos e veículos parados na beira da estrada para saber o que estava acontecendo alí. Era difícil de acreditar mas era a Índia e como os indianos mesmo dizem:  tudo é possível. Despedi-me deles e fui embora. Agora já estava próximo de Muzaffarpur.
 
Quando cheguei na entrada da cidade perguntei para um sujeito onde poderia encontrar um hotel. Ele parou e começou a me explicar. Dez minutos de explicação e 20 indianos a minha volta. A essa altura eu já queria fugir dalí. Um deles pediu para que eu o seguisse, que ele me levaria até um hotel. Segui-o e percebi que a cidade estava alagada e as ruas completamente destruídas. Com um pouco de dificuldade para desviar dos buracos, da lama e dos indianos eu consegui chegar até o hotel.
 
Como de constume, eles disseram que estavam cheios. Não sei porque eles sempre fazem isso, mas eles sempre estão cheios para os estrangeiros. Já não tinha mais energias para “indianices” e muito menos paciência para qualquer coisa. Falei com o sujeito da recepção e expliquei minha situação. Misteriosamente um quarto surgiu para mim. O lugar não era uma maravilha, mas era o melhor que a cidade podia me oferecer.
 
Tomei um banho, cozinhei meu jantar e fiquei no meu quarto, vendo a chuva cair e a energia acabar e voltar a todo o instante, até que eu, vencido pelo cansaço, dormi.
 
Terça-feira (21 de agosto de 2007)
Muzaffarpur – Mothari (86 km)
 
Não tinha porque perder muito tempo na cidade. Logo tomei meu café da manhã e arrumei tudo para cair na estrada novamente. Olhei no mapa e parecia que hoje seria mais fácil. A distância era um pouco mais longa, mas a pista parecia ser melhor (segundo o mapa). Animei-me e logo fui para a as ruas destruidas de Muzaffarpur. Não foi fácil encontrar a estrada, muito menos desviar-me dos buracos e lamaçais pelo caminho, mas depois de algum tempo eu consegui chegar na rodovia.
 
Meu mapa dizia que a pista era boa e dupla, mas eu encontrei uma pista estreita, semi-destruida, sem sinalização, com diversos buracos e repleta de caminhões. Não foi fácil, a cada buraco eu era obrigado a freiar e a cada caminhão que entrava na contra-mão para desviar dos buracos eu era obrigado a sair da pista. Não era possível estabelecer uma velocidade constante nesta estrada.
 
Na medida que eu seguia eu comecei a entender o porque das pessoas olharem com uma cara assutada para mim quando eu dizia que estava indo para o Nepal. Toda a região estava alagada. Esta estava ainda pior. Completamente debaixo d’água. Ruas, bairros e até mesmo cidades inteiras totalmente alagadas. Era até difícil de acreditar. E diante dessa situação as pessoas apenas mostavam uma espécie de barraca na beira da estrada e viviam alí, sem mesmo ter o que comer e água potável para beber. Mas todos defecando na beira da pista. Sei que isso é estranho. Para mim também é estranho, especialmente pelo fato deles fazerem isso traquilamente na frente de todos. Mas é o costume deles.
 
Eu respeito os costumes, mas não tenho como negar que não é muito agradável tendo que desviar de cocôs humanos a todo segundo. Assim, como não é interessante tocar naquela água que já estava infectada. Mas eu também não tive saída, para atravessar um dos pontos alagados da estrada eu tive que entrar com a bicicleta dentro d’água e molhar até a canela. Era melhor acreditar que a água estava limpa.
 
Segui em frente num caminho difícil até a cidade de Mothari, onde eu consegui encontrar um lugar razoável para passar um noite, antes da minha última pedalada com destino ao Nepal, minha esperança. Eu só não sabia o que os últimos quilômetros de Índia guardavam para mim. Mas esta história, já faz parte dos dias nepaleses.

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