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Segunda-feira (9 de outubro de 2006)
Auckland
 
Preparei-me para meus últimos dias de Auckland. Acordei numa cama hoje, não era minha mas era uma cama, que muitas vezes é melhor que um sofá. Havia tentado dormir na sala, mas estava impossível, pois algumas pessoas depois de verem o Marcelo eu eu dormindo lá, começaram a utilizar o local como cama também. Dormir no sofá virou estilo de vida. As vezes tenho a impressão que eles achavam que eu estava fazendo isso porque simplesmente achava legal e não porque não tinha outro lugar para dormir mesmo.
 
Após despertar fui voltar no tempo e telefonar para o Brasil, onde ainda era domingo. Falei com meu pai e tive a informação que o cartão poderia demorar mais que o esperado. Não era uma notícia boa para mim. Já se passaram 2 semanas desde que cheguei aqui, já não tenho o que fazer faz tempo e não vejo a hora de voltar a pedalar. Esperar mais não será muito fácil.
 
Como eu ainda tenho a esperança de ir embora amanhã, resolvi fazer tudo o que precisava hoje mesmo. Senti na frente do computador, escrevi. Tirei o telefone do gancho e fiz uma série de ligações. Arrumei minhas malas. Verifiquei a bicicleta. Deixei tudo certo para partir. Paguei a hospedagem, para não ter problemas na hora de retirar meu envelope na recepção. Enfim, fiz tudo o que precisava.
 
Isso tomou todo o meu dia, que quando percebi já havia acabado. Faltavam poucas coisas para realizar, mas o mais importante já estava finalizado. Era o momento de cuidar de minha gastrite que voltou, devido à minha má alimentação de uns dias para cá. Agora é o momento de eu me cuidar para estar preparado para pedalar novamente.
 
Terça-feira (10 de outubro de 2006)
Auckland
 
A primeira coisa que fiz hoje foi perguntar se minha carta já havia chegado. Para minha infecilidade não havia nada ainda. Para a minha surpresa, havia uma outra carta para mim, contendo um cartão com meu número de IRD, aquele mesmo número que eu precisava para trabalhar na Nova Zelândia. É por meio deste pequeno número que o empregador desconta todos os tributos do salário do empregado.
 
Receber esse envelope foi interessante para descobrir a eficiência dos orgãos públicos neozelandeses e certificar que o endereço que eu havia informado para todos estava realmente certo. Por outro lado, este cartão só me servirá como lembrança dos dias preto e branco que passei em Auckland. O cartão que eu estou esperando é outro.
 
Após essa notícia eu não fiquei muito feliz. Para piorar, fui para a cozinha da hospedagem e vejo um velho italiano, já com os seus 70 anos, roubando a comida de todas as pessoas, inclusive a minha. Olhei bem. Pensei que o velho era louco. Fiquei quieto. Conversei com outras pessoas e descobri que ele já estava fazendo isso havia tempo e ninguém fazia nada. Olhei para o velho, me contive uma vez e depois achei melhor ter uma conversa com ele.
 
Falei que ele havia comido uma comida que era minha, sem pedir permissão. Pensei que ele iria pedir desculpa, mas ocorreu o contrário. O velho assumiu que havia feito aquilo, porque uma manteiga sua havia sumido e agora ele estava procurando seu alimento furtado nas prateleiras dos outros. Em sua cabeça, esse fato lhe dava o direito de fuçar na comida alheia. E mais. Nestas suas aventuras pelo mundo da comida dos outros, quando ele encontrava alguma embalagem sem etiqueta, ele automaticamente tomava o alimento para si.
 
Que velho safado! Ficamos discutindo por alguns minutos, até já havia algumas pessoas que se juntaram ao meu lado, mas eu percebi que estava perdendo o meu tempo, pois ele acreditava que não havia nada de errado com o que ele fazia. Apenas tomei meu café da manhã, ainda inconformado com a atitude do senhor.
 
Logo depois fui até uma agência de correio, para saber da minha “encomenda” e com o número que eu tinha em mãos não poderia ser feito nada. Eu tinha o número brasileiro e precisava do número neozelandês. Passaram-me um telefone, saí da agência debaixo de uma chuva de granizo e fui até o orelhão mais próximo. Liguei e fui informado que não havia nada com aquele número no território neozelandês. Mais uma surpresa.
 
Isso significava que, provavelmente, nem mesmo amanhã eu conseguiria receber meu tão esperado envelope. Não poderia fazer mais nada a não ser aceitar os fatos e esperar mais um pouco. Esperei a gelada chuva de granizo acabar e voltei para a hospedagem. Fui recebido com a notícia que a direção do local havia mandado o velho embora e algumas pessoas vieram me agradecer por eu ter tido uma conversa com ele.
 
Agora, de sem-teto-dorme-no-sofá eu passei para o messias da comida da galera. Que mundo louco. Para fechar o dia eu apenas precisava atualizar o site. Saí e só voltei horas depois, quando já era quase meia-noite e todos estavam reunidos na famosa mesa da cozinha, conversando até o sono chegar.
 
Hoje eu não fiz muito parte desta conversa. Estava cansado demais para conversar. Apenas cozinhei uma sopa e fui dormir.
 
Quarta-feira (11 de outubro de 2006)
Auckland
 
Acordei com o quarto completamente vazio e sem saber que hora era. Fui para o banheiro e ao voltar para o quarto descobri que meu cartão não abria mais a porta do quarto. Estava preso para fora. Desci na recepção. Perguntei sobre meu envelope e nada. Teria que ficar mais um dia por aqui. Paguei mais uma noite, mas teria que mudar de quarto, porque não havia feito isso antes das 10 da manhã.
 
Subi mais um andar com todas as minhas malas e me instalei num quarto menor. Tinha que comer ainda, mas não tinha mais nada para comer. Saí para o mercado e descobri que só tinha 4 dólares no bolso e o supermercado não aceitava cartão de crédito. Consegui comprar um saquinho de kiwis, a fruta mais barata do país. Fui para a hospedagem e fiz uma vitamina de kiwi, ao mesmo tempo que torcia para que alguém colocasse algo comestível nas prateleiras da free food.
 
Liguei de novo para o correio neozelandês e nada de carta brasileira neste fim de mundo. Nada mudava. Nada acontecia. Já estava achando estranho não ter sinal desta encomenda do Brasil, no entanto não tinha outra opção senão esperar um pouco mais.
 
Me restou a opção de acreditar que o cartão chegaria amanhã e deixar tudo pronto para isso. Sentei na frente do computador mais uma vez e resolvi trabalhar um pouco. Fiquei até me cansar, isso já era quase meia noite. Fui comer e acabei ficando na mesa conversando com as pessoas, cujos dias de Auckland também estavam acabando. Entrei na onda da despedida e dei alguns abraços e beijos, que ainda não sabia se seriam os definitivos.
 
Quinta-feira (12 de outubro de 2006)
Auckland
 
Acordei cedo. Fui para a recepção e mais uma vez nada. Fui para o telefone e também nada. Agora já estava se tornando um pouco estranha essa demora. Além de angustiante, já não era normal demorar tanto. Liguei para minha casa brasileira em busca de novas informações e descobri que a encomenda já estava aqui em Auckalnd, mas não nos correios normais e sim nos enormes depósitos de uma empresa chamada TNT.
 
Liguei para o lugar certo desta vez. E me informaram que meu envelope já estava lá e provevelmente chegaria ainda hoje para mim. Mais uma vez me restava esperar. Para minha surpresa, enquanto eu cozinhava meu almoço, chegou um fax na recepção do backpackers. O documento dizia que eu teria que pagar uma taxa pela importação que estava fazendo, a pequena taxa era mais que 100,00 dólares neozelandêses. Nem tinha esse dinheiro! O pior de tudo é que não fazia sentido estarem me cobrando esse tributo, pois era um cartão de crédito e não uma mercadoria.
 
Inconformado com o procedimento do governo neozelandês eu liguei para o customs (a alfândega daqui) e conversei com a pessoa responsável. Infelizmente, descobri que eles estavam fazendo certo e o erro vinha dos Correios brasileiros, que classificaram minha carta como mercadoria. Agora fazia sentido, ainda mais quando o erro já vinha do Brasil. Para complicar ainda mais, se eu quisesse pegar o cartão hoje teria que me dirigir até o aeroporto para pagar essa taxa e retirar o meu envelope.
 
Como eu já disse, se não fosse o little help of my friends eu estaria com uma série de problemas durantes estes dias. Mais uma vez fui salvo por um amigo que fiz aqui em Auckland. Um francês chamado Arnaud, com seu carro chamado Titine, me levou até o aeroporto da cidade.
 
Até encontrar o depósito da empresa demoramos um pouco. Primeiro fomos até o aeroporto, para descobrimos que o que queriamos não estava dentro do aeroporto, mas sim fora. Saímos e encontramos do depósito da TNT, para descobrirmos que o que eu estava procurando estava em outro depósito, o da TNT express. Fomos até a TNT express para descobrir que estava lá o que eu queria e que teria mesmo que desembolsar uma boa grana.
 
Já com o cartão em mãos, voltei para o hotel e realizei um exitoso saque, que além de algumas notas, me deu a viagem de volta. Agora eu tinha a certeza que hoje era o meu último dia na cidade. Despedi-me pela segunda vez de todos, agora era para valer e até fiquei triste, pois foram estas pessoas que me ajudaram nestes dias difíceis. Em que eu senti na pele e no coração a dificuldade daqueles que ficam e vêem todos passarem e irem embora.
 
Adeus Auckland. Adeus amigos. O Pedal na Estrada continua.
 
Sexta-feira (13 de outubro de 2006)
Auckland – Hamilton (123 km)
 
Cedo para o dia. Muito tarde para a viagem. Acordei na cama de cima de um barulhento beliche do YHA Auckland Internacional, a mesma hospedagem que me abrigou todo esse tempo. Não tive uma noite boa. Dormir cedo não fazia mais parte do meu relógio biológico, mas mesmo assim fui para a cama. Queria acordar às 6 e meia da manhã.
 
Demorei um pouco para pegar no sono. Acho que uns 15 minutos. Isso para mim é insônia. Estou acostumado a dormir antes mesmo de fechar os olhos. Dormi um sono leve e apreensivo. Não sei porque. Tão leve, que acordei com um sujeito entrando no quarto às 3 e pouco da manhã, que além de fazer muito barulho, para meu azar, se deitou na cama abaixo da minha.
 
Ele sim tinha insônia. Deitou na cama e não conseguia dormir. O cara não parava de se mexer. O nhec-nhec da cama chegava até o meu travesseiro e não me deixava dormir também. Pobre sujeito e pobre de mim. Depois de muita concentração dormi de novo, sendo despertado às 6 e meia pelo meu despertador.
 
Para minha surpresa o sujeito da cama de baixo ainda estava acordado. Pobre diabo. Ele precisava de um sonífero para conseguir dormir.
 
Fui fazer meu café da manhã, bem cedo, enquanto a cozinha estava ocupada apenas pelo pessoas do hospício que foi passar uns dias lá na hospedagem. Parece até brincadeira, mas é verdade. Cerca de vinte pessoas deixavam um clima “muito louco” no local. Gritos, risadas, grunhidos e mais alguns sons do tipo já não assustavam mais nenhum hóspede do local.
 
Comi bastante. Precisava. Ainda mais porque minha gastrite, nos últimos dias resolveu pegar fogo de novo. Agora tinha que levá-la comigo nesta pedalada. Fui me alongar e descer todas minhas bagagem para a bicicleta. Arrumei tudo, olhei meu mapa, pensei para onde eu ia hoje. Tinha, além da dúvida, um problema, como saíria de Auckland sem entrar na proibida Motorway (via expressa, restrita para veículos automotores).
 
Escolhi a cidade: Hamilton. Escolhi o caminho: Motorway. Não sabia outro e lá fui eu. Em poucos minutos já havia um caminhão me perturbando, dizendo que eu não poderia pedalar alí. Para piorar ele chamou a polícia, que chegou em menos de um minuto, parecia que já estavam me esperando. O bom foi que o policial viu que eu era turista e não aconteceu nada, só me indicou para pegar outra pista e sair dalí o mais rápido possível, antes que alguém passasse por cima de mim.
 
Peguei uma pista que fazia alguns zig-zags em torno da pista proibida. Me tomaria mais tempo, mas era a única opção que eu tinha. Comecei a pedalar. Até que olhei no mapa e percebi que o meu destino estava a mais de 100 quilômetros de distância, na verdade, a mais de 120. Isso não costuma me assustar, mas depois de quase 3 semanas parado, precisava voltar com calma.
 
Pensei em pedalar até onde eu podia. Tinha tempo mesmo. Quando estava chegando nos 45 quilômetros pedalados. Comecei a sentir fome e conseqüêntemente uma forte dor no estômago. Agora tinha que consegui achar alguma coisa para comer. Pedalei mais um pouco e encontrei uma lojinha de conveniência que tinha algumas tortas. A torta não era ruim, mas era tão saudável quanto um hamburguer do MacDonald`s.
 
Depois do alimento que não me caiu muito bem. Continuei pedalando. Estava disposto a chegar no meu objetivo, por mais difícil que estivesse. Um vento frio vinha de lado e as vezes de frente, freiava a bicicleta.. Mesmo assim continuei. Já estava ficando cansado, mas continuei. 100. 110. 120 quilômetros e só então eu cheguei em Hamilton.
 
Procurei backpackers e nada. Pedalei mais que eu esperava dentro da cidade em busca de um lugar para ficar. Encontrei um péssimo e caro. Desisti e fui atrás de outro lugar. Agora não havia cama vaga, estavam cheios. Mais uma pedalada e cheguei num lugar que parecia bom e barato. Um quarto só para mim era tudo o que eu queria naquele momento de grande cansaço.
 
Sozinho dentro deste quarto de hotel eu me lembrei dos dias de América do Sul e desmaiei na cama.
 
Sábado (14 de outubro de 2006)
Hamilton – Tauranga (96 km)
 
Às 7 horas da manhã meu corpo não queria responder ao chamado do despertador. Senti que a pedalada de ontem havia sido forte demais para um semi-sedentário como eu. Os dias de sofá e comida barata fizeram a diferença em minha atual pedalada. Creio que necessitarei de alguns dias para estar completamente adaptado às fortes pedaladas que estava acostumado no continente anterior. Quando 100 quilômetros já não eram mais nenhuma surpresa, mas sim um passeio qualquer.
 
Agora já não posso dizer o mesmo. Estou “quebrado” após uma única pedalada, pagando o preço dos dias em preto e branco de Auckland. Custei a sair da cama. Parecia que meu corpo queria se recuperar alí, naquela cama. Tive que ser mais forte e dizer que o descanso iria demorar um pouco e hoje era dia de pedalar. Um pouco menos, mas pedalar bem também.
 
Distino: Rotorua. Distância: 101 quilômetros. Para isso, tive que comer bastante no café da manhã e me alongar por um bom tempo, buscando desconcentrar o ácido lático produzido pelos músculos da minha perna. Feito o ritual, parti para mais uma pedalada e, hoje, também um desafio.
 
Comecei bem. Terreno não muito montanhoso. Vento médio, algumas vezes a meu favor. Esses fatores fizeram com que eu acelerasse um pouco no início, chegando a uma cidade chamada Cambridge, onde parei para comer alguma coisa leve e secar um litro de suco de laranja em menos de um minuto. Com o almoço expresso já em meu delicado estômago eu segui em frente.
 
No entanto, ao sair da cidade, olhando meu mapa percebi que Tauranga, a cidade que estava em meus planos, mas que eu havia deixado de lado, estava mais próxima que Rotorua, meu atual destino. Pensei um pouco. Por que não? A pedalada seria mais curta. Mudei minha rota, não muito, mas mudei. Adicionei esta cidade litorânea, que segundo alguns, também é um reduto de brasileiros.
 
A escolha me fez bem. Estava cansado para pedalar muito e este caminho, além de mais curto, também apresentava boas descidas, que me levavam até o litoral. Em poucas horas já estava em Tauranga, uma cidade simpática, sem grandes atrações. Eu que estava esperando encontrar uma praia, não vi nada disso. Após algumas perguntas e respostas, descobri que o lugar eu procurava era uma espécie de bairro de Tauranga, chamado Mount Maunganui.
 
Pensar muito foi desnecessário, queria chegar na praia. Montei na bicicleta e segui por mais poucos quilômetros até o lugar. A escolha foi certa. O cenário que vi ao descer a minha última montanha foi maravilhoso. Um mar azul. Centenas de barcos. Uma península estreita, mas suficiente larga para abrigar a parte mais bonita da cidade. E a montanha, o Mount Maunganui.
 
A primeira impressão que tive foi de estar num local simpático, agradável e acolhedor. Algumas pessoas na areia. Pessoas sempre com roupa, pois além na água ser bastante fria, o vento de hoje não estava convidando ninguém a um mergulho no mar. Gente passeando tranqüilamente na orla marítima. Enfim, um lugar para se desfrutar.
 
Não custei muito para encontrar um lugar para ficar e me instalei, deixando minhas coisas, me alongando e saindo, desta vez a pé, para conhecer a cidade. O vento, nesta hora, estava forte a um ponto de deixar o mar bastante agitado e com pequenas ondas, que faziam os barquinhos balançarem de um lado para o outro. O vento exigia força até para andar, mas mesmo assim resolvi subir na montanha que estava a minha frente.
 
Vi um caminho e lá fui eu para uma subida levemente enclinada, que me conduziria até o elevado topo. Como descobri, a montanha também era uma ótima pista de atletismo para alguns que a subiam e desciam num ritmo acelerado, suando e querendo suar mais dentro de seus, já molhados, moletons.
 
Minhas pernas já cansadas não ficaram felizes com a subida, mas mesmo assim chegaram até o topo, deixando o prêmio para meus olhos, que apreciavam a maravilhosa vista da região. A água azul. A praia. Toda a península. Toda a cidade. Minutos tranqüilos no topo da montanha, que recebia todos com sua maravilhosa vista e fortes e frios ventos.
 
Ao descer da montanha já encontrei alguns brasileiros e horas depois fui entender porque aqui era conhecido como reduto de tupiniquins. Na hora do jantar, só na hospedagem onde eu estava haviam mais de 10 brasileiros em uma só mesa. Falando português, ouvindo pagode e comendo camarão frito.
 
Sentei junto a eles e conversamos por algum tempo. Contei algumas histórias minhas e ouvi outras deles, que já estavam aqui a 7 meses e me explicavam o porque da Nova Zelândia estar criando barreiras para a entrada de brasileiros no país. Além da evidente invasão ocorrida nos últimos anos e das malandragens típicamente brasileiras, alguns foram mais longe e mostraram mais para os pacíficos kiwis. Na semana passada um brasileiro esfaqueou um conterrâneo seu nesta cidade. Atitude incomum neste país, que diferentemente do Brasil, costuma assustar todos por aqui. Há pouco tempo, um brasileiro estuprou outra brasileira. Atitude repugnante em qualquer parte do mundo.
 
Por essa e mais outras este país, a partir deste mês, passou a exigir um visto para aqueles que querem entrar aqui. Ficou mais difícil, mas dá para entender o porque.
 
Domingo (15 de outubro de 2006)
Tauranga – Rotorua (78 km)
 
Deixei-me acordar um pouco mais tarde hoje, é domingo. Não muito tarde também, pois ficar parado não estava em meus planos. Comecei o ritual matinal, que foi interrompido para conversar com os brasileiros que estavam por alí. Ficamos conversando durante um bom tempo, o suficiente para eu perceber que seria bom eu correr um pouco se eu quisesse chegar em Rotorua.
 
Saí do backpackers e fui em direção ao centro de Tauranga, localizado à 7 quilômetros da onde eu estava. Após fazer um zig-zag e passar por uma ponte eu cheguei onde queria, para ser informado que teria que voltar pelo mesmo caminho, para pegar a estrada. Foram 15 quilômetros perdidos, agora só me restava pedalar de novo.
 
Enquanto estava no centro da cidade, encontrei mais alguns brasileiros, agora do sul do país, perdidos pelas ruas da pequena cidade. Ao conversar com eles descobri que eles estavam mais perdidos que eu. Não sabiam para onde ir, não falavam inglês direito, já não tinham muito dinheiro e haviam acabado de chegar alí para procurar trabalho. Mais histórias para família brasileira que arrisca sua vida em busca de alguns trocados.
 
Só pude desejar boa sorte para todos e cair na estrada novamente. Durante bons quilômetros a pedalada foi bastante prazerosa. Vento a meu favor. Céu azul. Relevo plano. Paisagem linda. No entanto, isso foi só durante o começo. A partir do momento em que eu troquei de estrada, tudo se inverteu e pedalar se tornou um pouco mais difícil, especeialmente ao ver a chuva se aproximar, tendo que enfrentar uma subida de mais de 10 quilômetros.
 
Depois de brigar um pouco com o vento e montanhas, cheguei em Rotorua, uma cidade que cheira a ovo cozido, devido à intensa atividade vulcanica existente na região, que propicia a formação de geysers e piscinas naturais, todas ricas em enxofre. Já nos limites da cidade e acompanhado pelo intenso cheiro, eu vi um carro parar a minha frente. Um sujeito simpático desceu de sua grande caminhonete e veio falar comigo.
 
Ficou impresionado com o que eu estava fazendo e me convidou para colocar a bicicleta em seu carro e me mostrar a cidade. Pensei algumas vezes, vi a chuva começar a engrossar, juntamente com um vento frio que varria as ruas da cidade nesta tarde domingo e coloquei a minha bike na caçamba da caminhonete e fui embora. Em menos de uma hora eu já havia percorrido toda a região, incluindo o topo da montanha e os arredores do grande lago, dentro da cidade.
 
Mais uma atitude simpática por parte dos kiwis. Para fechar, o sujeito ainda me deixou na porta de uma hospedagem. Instalei-me no local e dei o descanso necessário para o meu corpo, que ainda está sofrendo neste novo começo.

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