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Segunda-feira (31 de julho de 2006)
Santa Rosa – Raqchi (89 km)
 
Quando sai de Santa Rosa à 7 horas da manhã já sabia o que estava por vir: Abra La Raya. Imaginava algo especial, pois é a divisa de 2 departamentos (Estados) peruanos, Puno e Cusco. A escolha do local foi bem feita, este ponto fica a exatamente 4.338 metros acima do nível do mar e para chegar lá eu teria que pedalar por quase 30 quilômetros de subida, para só então aproveitar as descidas do lado Cusquenho.
 
Comecei bem e com uma vista maravilhosa, já que o Sol estava ainda em seus primeiros raios de luz. A pedalada estava rendendo, até que os ventos começaram de novo. Como sempre na direção sul, o que fazia com que se chocassem de frente em meu peito. A subida nem era tão difícil, apesar de longa, entretanto agora com o vento, mesmo uma descida ficaria difícil.
 
Com o vento gelado em meu peito fui subindo a montanha. Quando cheguei ao cume só queria um pouco de descanso e apreciar a vista do local. Descanso eu tive, mas vista panorâmica não. O lugar não tinha nada de mais, só a altura mesmo. Para piorar todos os ônibus turísticos paravam alí para que seus turístas descessem para fotos ou mesmo para comprar alguma coisa na feira artesanal realizada nesse ponto tão alto.
 
Não perdi muito tempo no local. Logo em seguida iniciei a seqüência de descidas que me esperavam. Foi uma pena estar o tempo todo com um vento muito forte em meu peito, o que limitava minha velocidade. Devido à esta força da natureza não consegui correr muito na descida, pois mesmo fazendo o possível para escapar do vento os meus alforjes pareciam paraquedas, me freiando o tempo todo.
 
De toda forma, estava descendo e aproveitando bastante o caminho, que a cada 10 quilômetros tinha um pequeno povoado, que na maioria das vezes nem figurava em meu mapa. Passei por um pequeno povoado chamado Aguas Calientes, que tinha algumas piscinas termais. Confesso que fiquei com vontade de entrar naquelas águas quentes, mas segui em frente, para alcançar meu objetivo.
 
Pouco tempo depois cheguei em Sicuani, porém pouco antes disso conheci mais 2 cicloturistas, agora franceses, viajando à 10 meses. Haviam iniciado sua aventura no México e pretendiam chegar até a Patagônia. Logo depois do inesperado encontro, voltei para o meu rumo e cheguei na maior cidade da região, que à primeira vista, me pareceu um pouco perigosa.
 
Nesta cidade aproveitei para almoçar. Não estava com muita pressa, tinha tempo ainda. Saí da cidade com o objetivo de pedalar mais 40 quilômetros e mais uma vez encontrei um casal de ciclistas. Alemães que já estavam viajando a 14 meses e indo para o mesmo lugar que todos os outros, Patagônia.
 
Sempre é muito bom encontrar com essas pessoas. Creio que falamos a mesma língua e aí está também um pequeno problema: ficamos sempre muito tempo conversando. Encontrar com 2 pessoas ou grupos assim já pode ser o suficente para até mudar o cronograma de viagem. Foi isso que aconteceu comigo. Percebi que nas paradas de hoje eu já havia perdido um bom tempo.
 
Além do tempo agora curto, eu estava enfrentando um vento muito forte, que cobrava de mim muita força e paciência para seguir em frente. Quando eu já estava farto do vento resolvi entrar num povoado muito pequeno, chamado Raqchi, cuja principal atração são ruínas de um templo Inca.
 
Por um estreito caminho de terra, entrei na pequena cidade, onde vivem cerca de 200 pessoas, de vida simples, sustentada pelo turísmo local. Ao chegar na praça principal da cidade, haviam alguns ônibus e carros de turistas. O mais engraçado foi que ao parar minha bicicleta ela se tornou a atração do local. Os turistas queriam agora fotos comigo e com a bicicleta.
 
Parado em frente à igreja do local eu fiquei um bom tempo trocando contatos com os turistas, que quase sempre me convidavam para ficar em suas casas. Isso sempre me deixa feliz. Após conversar com quase todos alí eu fui conhecer as ruínas do local.
 
Logo de cara eu me deparei com uma parede de 12 metros de altura e cerca de 1 metro de espessura, fragmento de um templo Inca, construído em homenagem ao maior deus dessa cultura, chamado Wiracocha, o criador do universo. O mais interessante foi apreciar o bom estado em que ainda se encontrava o local e preservava inclusive algumas gravuras em sua parede.
 
Segundo a lenda, os espanhois quando chegaram ao local, séculos atrás, trataram de fazer o que sabiam de melhor, destruir tudo. Atearam fogo no templo que tinha um teto de quase 1 metro de grossura, feito em palha. Os habitantes dizem que somente o teto ficou queimando por quase toda uma semana, até não sobrar mais que a parede central e uma coluna laretal do templo.
 
O resto do povoado que alí existia passou pelo mesmo: fogo e destruição. Hoje só as pedras podem ser apreciadas. Mesmo assim, é possível ter um idéia precisa do local. Das construções levantadas de forma calculada, de acordo com os solstícios do ano. Casas dos sacerdotes, locais para estocar alimentos,  locais para as cerimônias e rituais e até um local de banhos dos incas, que por sua vez ainda funciona.
 
O mais interessante foi saber como os incas tomavam banho. Na verdade ainda tomam, pois as pessoas deste povoado ainda preservam algins costumes ancestrais. Eles dividem o corpo em 2 partes, superior e inferior. Começam lavando da cintura para cima, usando uma proteção para não molhar a parte de baixo. Assim, jogam a água para cima, lavando-se de baixo para cima. Com a parte de baixo se passa o mesmo, só que de forma contrária, de cima para baixo.
 
Foi nesse pequeno povoado, que ainda mantêm costumes e tradição já quase esquecidos pela maioria das pessoas, que eu fui convidado e ficar alí uma noite e participar de um ritual que acontece da noite de 31 de julho para 1º de agosto, em homenagem à Pachamama. Não havia como recusar o convite, ainda mais porque eu seria o único turísta a participar de tal acontecimento.
 
Resolvi ficar esta noite e conhecer um pouco mais de uma cultura já quase esquecida. Enquanto pensava em minha estadia alí, Roman, um desenhista local fazia uma caricatura minha em aquarela, que na minha opinião, ficou muito boa. Ao final do desenho, ele, ao contrário da maioria, apenas me deu o presente, sem me cobrar nada.
 
Já estava começando bem minha estadia alí. Para melhorar apareceram com uma bola e começamos a jogar futebol. Por sorte ninguém alí sabia jogar muito bem e assim não ficou muito feio para este ciclista que veio do país do futebol. Contrariando a regra e as expectativas das pessoas, mesmo sendo brasileiro, como jogador de futebol eu sou um bom ciclista.
 
Tudo isso para esperar o inicio do ritual, que só foi começar às 9 da noite. Lá fui eu já à caráter, com um poncho e um gorro. Sentei-me em meio à cerimônia que foi completamente falada em quêchua, ou seja, não entendi nada. Mesmo sem entender estava alí e participei do que todos faziam, especialmente daquilo que parecia não ter como fugir, as folhas de coca e a bebida deles.
 
Após todos já estarem para lá de Bagdá e tocando qualquer coisa com suas flautas, fomos para o centro de cerimônias das ruínas. Alí se iniciou o ritual, que queimaria a oferenda à Pachamama, entre elas, todas as folhas de coca que carregavam os desejos de cada pessoa presente. Exatamente à meia noite o fogo foi ateado e a fumaça se espalhou por toda parte.
 
A esta altura eu, que não estava entendendo muito das palavras em quêchua, já estava bem cansado e só sonhava com uma cama qualquer, não com a minha, pois não tenho mais, mas qualquer cama mesmo, ou mesmo o meu saco de dormir, que já está de bom tamanho. Entretanto, o ritual ainda não havia acabado e agora só ficavam falando. A essa altura eu já estava “pescando” e nem sabia o que se passava a minha volta.
 
Quando despertei, já havia acabado a falação e todos estavam indo embora. Lembrei, então, que eu ainda não tinha onde dormir. Conversei com algumas pessoas e em poucos minutos já havia uma cama para mim. Depois foram somente sonhos.
 
Terça-feira (1º de agosto de 2006)
Raqchi – Urcos (74 km)
 
Nem preciso falar que não consegui acordar em meu horário padrão. Além de acordar mais tarde que o normal, estava com uma leve dor de cabeça, creio eu, causada pelo álcool de má qualidade usado na cerimônia. De qualquer forma, não estava tão mal assim e podereia pedalar hoje.
 
Depois de aprontar minhas coisas, fui me despedir de todos que me ajudaram em minha estadia por aqui. Fui agradecer e até acabei ganhando presentes das pessoas aqui. Fui embora muito feliz, nem sabia como retribuir tanta generosidade. Arrisco dizer que destes 4 meses de viagem, aqui, neste pequeno povoado, foi onde conheci algumas das pessoas mais hopitaleiras deste meu caminho.
 
Logo que saí dalí já encontrei mais uma ciclista. Pelo menos agora não era um casal, mas sim uma mulher, que viajava sozinha. Uma americana chamada Jeniffer, que estava viajando a apenas 1 mês e, como todos os outros, pretendia chegar na Patagônia. Ficamos conversando por muito tempo e eu que já estava atrasado, me vi numa situação delicada em relação ao meu tempo hoje.
 
Nos despedimos e fomos cada um para o seu respectivo caminho. Não precisei pedalar muito e encontrei um casal de ingleses, estes nem espanhol falavam. Haviam recém começado sua viagem e queriam chegar na Patagônia (que a esta altura eu já imagina que deveria ser a terra prometida dos ciclistas). Logo que me despedi dos 2 simpáticos ingleses, olhei para frente e alí estava mais um casal. Franceses. Pelo menos estes só pretendiam chegar até La Paz.
 
Ao voltar a pedalar percebi que meu tempo era curto e dificilmente eu consegueria chegar a Cusco hoje. Não havia descartado a possibilidade de chegar a Cusco hoje, isso até o momento em que o vento começou a fugir um pouco de seu normal e passou a entortar as árvores com sua força. Infelizmente, ele estava contra mim.
 
O esforço agora era tremendo. Desenvolver uma velocidade acima de 20 km/h era algo que só conseguiria em pensamento. Percebi que não me convinha chegar em Cusco hoje, seria melhor eu ficar uma noite numa cidade no meo do caminho e só amanhã pela manhã chegar a Cusco, já que faltariam apenas 50 km.
 
Assim, já sem forças fiquei em numa cidade chamada Urcos, que parece ter uma história interessante, pois foi no lago desta cidade, onde todo o ouro do império inca foi jogado, ao morrer o último imperador de Cusco, chamado Huascar. Já nesta cidade, comi alguma coisa e fiz meu roteiro para amanhã, que posso aproveitar para conhecer todas as atrações da região, pois terei tempo de sobra para chegar em Cusco.
 
Quarta-feira (2 de agosto de 2006)
Urcos – Cusco (53 km)
 
Acordei bem cedo e depois de entrar 2 vezes na fila do único e disputado banheiro da hospedagem onde eu estava e perceber que meu intestino estava novamente solto, voltei para a estrada. Desta vez, para concluir o caminho até Cusco. Apesar na minha animação, por estar tão próximo do meu objetivo, agora estava um pouco preocupado, pois não sabia se teria energia para chegar até lá, já que não estava bem de novo..
 
De qualquer forma eu comecei a pedalada. O inicio já foi o vestibular para o resto do caminho, pois logo de cara eu me deparei com uma grande subida, que inclusive passou pelo lago de Urcos, que mais que muita água, segundo a lenda, tem am seu interior uma boa reserva de ouro.
 
Olhei bem o lago que não parecia ter alguma riqueza em seu interior e continuei subindo o morro até chegar a cidade vizinha, chamada Huaro. Esta cidade podeira passar desapercebida se não fosse sua famosa igreja, datada do início do século XVII e carregada de desenhos da mesma época.
 
A igreja foi fácil de encontrar, dificil mesmo foi vencer a exploração turística que nem esperou eu chegar em Cusco para começar. Quando eu estava entrando na igreja o porteiro já pediu 4 soles para que eu entrasse no recinto. Paguei 2. Depois pediu mais, pelo simples fato de eu ter tirado fotos demais e o preço que eu havia pago apenas me permitia sacar 3 fotos.
 
Não contente em ter me explorado, ele queria que eu pagasse um pouco mais a cada foto que eu tirava. Mesmo sendo o alvo dessa exploração eu consegui apreciar os desenhos do local, que eram bem peculiares. Jesus Cristo com um martelo na mão; ricos queimando no inferno; a morte e uma série de outros desenhos que retratam o pensamento cristão daquela época.
 
Após ficar indignado com a exploração do porteiro peruano e impressionando com os detalhes dos desenhos das paredes da igreja voltei para o meu rumo, Cusco. Na estrada após passar por algumas cidades percebi um lugar curioso, eram 3 torres, todas com mais de 30 metros de altura, divididos em 4 degraus. Ruínas chamadas Pikillacta (um nome curioso, pois significa em quêchua povoado de pulgas, pois quase todos seus habitantes padeciam de erupções cutâneas provocadas por pulgas), que eram a porta de entrada da cidade de Cusco, enquanto capital do império inca. Funcionava como portão e também como aqueduto suspenso, que levava água para parte da cidade.
 
Ao sair do “portal” poucos metros depois havia mais ruínas, que levavam o mesmo nome da primeira. Toda uma cidade construída dentro de grande muros levantados com barro e pedra, que por sua vez eram diferentes das construções incas, feitas somente de pedra. Estas ruínas eram de uma outra civilização, que foi obrigada a sair do local com a chegada dos incas.
 
Não fiquei muito tempo no local e logo voltei para a estrada. Agora tinha que pedalar pouco mais de 15 quilômetrods para chegar em Cusco. Na medida que eu me aproximava as subidas ficavam um pouco mais inclinadas, o que piorou quando eu entrei na cidade, que guardava para mim uma grande subida até o centro.
 
Ao chegar numa praça da cidade e ainda perdido, escutei alguém gritar de uma carro que passava: Arhur! Que maravilha eu pensei! Já me conhecem por aqui! Não era bem isso, mas se tratava de uma grande coincidência. Meu amigo Arício, quem eu iria encontrar alí, havia acabado de me ver passar, de dentro de um taxi.
 
Não acreditei naquilo, pois não fazia nem 5 minutos que eu havia entrado na cidade e já haviam me encontrado. A primeira notícia que ele me disse, além do fato dele estar se dirigindo à delegacia de polícia atrás de mim, foi que estava muito mal, porque havia contraído uma doença já erradicada do Brasil: febre tifóide.
 
Nem sabia exatamente o que essa doença fazia, mas pela cara dele não devia fazer nada bem. O Perú também havia dado as boas vindas para ele, inclusive o levando para visitar um hospital. A boa notícia é que ele já estava se tratando com antibióticos e com um pouco de sorte não deixaria que esse bacilo furasse a parede de seu intestino, o que poderia levá-lo à morte.
 
Depois desse episódio fomos para sua hospedagem, para que eu deixasse minhas coisas por alí. O quarto seria pequeno para só uma pessoa e alí já estava sua bicicleta com toda a bagagem característica de uma bicicleta de viagem, agora eu tinha que colocar minhas coisas alí dentro também. Só encontramos uma possibilidade, colocar a cama com o colchão encostados na úmida parede do quarto e acomodar nossas coisas, de qualquer jeito mesmo.
 
Depois disso fomos comer. Bem... eu fui comer, pois o Arício ainda não conseguia. Assim, comi por mim e por ele. Depois da refeição fomos caminhar pelas ruas de Cusco, que tinham mais turístas que peruanos, o que resultava num comportamento peculiar por parte dos nativos: os invés de verem pessoas, viam só cifras (em dólar). Em função disso, sempre se esforçavam em pronunciar algumas arrastadas palavras em inglês, na tentativa de serem recompensados com uma propina verdinha.
 
Com a avalanche turítica que chega à cidade, especialmente nesta época, essa atitude fica mais acentuada, assim como os preços de restaurantes e hospedagens. O mais incrível é o contrate que se pode ver ao caminhar pelas ruas de Cusco, ao lado de restaurantes caros e de hoteis 5 estrelas, pode-se observar uma criança de 5 anos pedindo esmola ou vendendo uma comida diferente, pupas vivas.
 
E pelas ruas da contrastante Cusco eu aproveitei para conhecer uma brasileira que vive e conhece bem a cidade, Marília. Ficamos conversando por muito tempo e nem vi o tempo passar, quando dei conta da hora já era quase meia noite e eu estava muito cansando, precisando descansar, para com sorte seguir rumo a Machu Picchu amanhã.
 
Quinta-feira (3 de agosto de 2006)
Cusco
 
Acordei dentro do meu saco de dormir, deitado no chão do minúsculo quarto do Arício. Já era quase meio dia e eu ainda não tinha feito nada, nem ido na direção de Machu Picchu. Percebi que não seria hoje que eu tomaria esse rumo, a solução seria permanecer na cidade, conhecê-la e aproveitar para colocar em dia alguns afazeres que exigiam internet, que eu encontrava aqui facilmente.
 
Acabei inevitavelmente entrando em contato com a história de Cusco, cidade intalada à 3.360 metros de altitude, capital do império inca, cujo nome significa “umbigo” ou “centro do mundo”. Segundo a lenda, a cidade foi fundada por Manco Cápac e Mama Occllo, aqueles mesmos, que sairam das águas da Lago Titikaka.
 
A Cusco incaica manumental data do século XV e se atribui grande parte das construções ao inca Pachacútec (1438 – 1471), que foi responsável pela construção dos mais admiráveis edifícios da cidade, nos quais se pode ver finos talhados de pedra de encaixe perfeito.
 
Desde a chegada dos espanhóis, Cusco se converteu em uma cidade mastiça e colonial, com grande edificações sobre as pedras da arquitetura inca, assim surgiu um estilo mestiço próprio na arquitetura e pintura. Tal caracterítica pode ser facilmente admirada nas igrejas da cidade, que é conhecida como Capital Arquiológica da América.
 
Intusiamado pela história de Cusco, após almoçarmos, Arício e eu fomos caminhando pelos morros até o limite da cidade, uma região mais alta, de onde podiamos observar toda Cusco, mas principalmente conhecer as ruínas da fortaleza de Saqsaywaman, que foi palco de uma das maiores batalhas entre os incas e os espanhóis.
 
O local ainda preserva suas caraterísticas: muralhas de pedras, grandes degraus e, até mesmo, as portas trapezoidais, quase sempre construídas de acordo com o solstício. Uma das caracteríscas mais impressionates destas ruínas é o tamanho das pedras usadas nas constuções, que quase sempre gera uma incógnita: como levaram tais pedras até lá?
 
Descobri também que parte das pedras deste sítio arquiológico foram usadas pelos espanhóis para levantar as igrejas do centro de Cusco. Por sorte eles não conseguiram retirar as pedras maiores, o que possibilitou que o local permanecesse em pé até hoje. Em torno de 1934, arquiólogos descobriram construções de formato circular no alto nas partes mais altas do local, o que acreditam ser reservatórios de água, usada pela cidade séculos atrás.
 
Depois desse pequeno tour, no qual podemos ver o pôr-do-Sol nas ruínas, voltamos à cidade. Agora eu tinha que correr para conhecer Machu Picchu, pois, mesmo doente, Arício não tinha muito tempo de Peru e eu tinha que conhecer Machu Picchu e suas redondezas. Consegui algumas informações e fui dormir um pouco mais cedo, para não perder tempo amanhã.
 
Sexta-feira (4 de agosto de 2006)
Cuzco – Ollantaytambo
 
Acordei cedo, coloquei o que eu precisaria numa bolsa e fui embora, sozinho, pois o Arício ainda estava se recuperando. Sai também sem a minha bike, pois todos haviam dito que o único jeito de chegar em Machu Picchu seria de trem ou caminhando, o que eu descobri depois que não era bem assim. Depois de uma caminhada e de pedir muitas vezes informação, cheguei no terminal de ônibus. Só então descobri que não era dali que saia o ônibus que eu queria.
 
Havia me esquecido do quanto as informações que os peruanos dão são falhas. Por sorte conheci um senhor que foi com a minha cara e no final das contas resolveu entrar no ônibus junto comigo. Era uma espécie de mini-ônibus que levava de tudo: galinha, cachorro, crianças, velhos, turístas, índios, gente sentada e gente em pé.
 
Uma hora e meia depois eu estava em Pisac, minha primeira parada rumo a Machu Picchu. Esta pequena cidade é famosa na região por seu mercado, que ocorre somente aos domingos, mas atrai pessoas de todas as partes. Alguns quilômetros acima da cidade estão as ruínas. Percebi que se eu quisesse ganhar tempo seria bom pegar uma carona. Não consegui com os ônibus turisticos, assim tive que pegar um taxi que já estava com 9 pessoas amontoadas em seu interior.
 
Após alguns minutos eu já estava na porta do local, que como eu já havia percebido, cobrava um preço relativamente alto dos turistas. Entrei nas ruínas de Pisac, que significa perdiz e logo me impressionei com o local, que está situado no ponto mais alto da região. Justamente em seu ponto mais alto está o templo inca, de onde se pode ver todas as outras construções, de coloração predominantemente vermelha, e as enormes curvas de nível, que pruduziam gigantescos desenhos nas montanhas.
 
Depois de percorrer todo o local, quase sempre ao som da flauta de um peruano, que se aproveitava da acústica do ambiente para fazer seu som ecoar por todo o caminho, eu consegui um carona e voltei para a cidade, da onde eu deveria tomar um outro ônibus, agora para Urubamba, da onde eu teria que pegar uma van até Ollantaytambo.
 
Quando eu acabei de almoçar chegou o ônibus que eu queria. Já estava cheio, mas isso para mim já não era nenhuma novidade. Assim, sentei no único lugar que havia disponível, ao lado do motorista, num típico assento para peruanos, pequeno, muito pequeno, de uma forma que minhas pernas não cabiam.
 
Mesmo assim, com a comida e com o calor que fazia eu peguei no sono, acordando somente quando já estava perto de chegar no destino final. Quando cheguei em Urubamba, nem tive tempo de conhecer a cidade, apenas desci do ônibus e já subi numa van, que também estava cheia.
 
Alí, na van, sentou-se um cara no meu lado. Começamos a conversar, descobri que ele havia morado um tempo no Brasil e falava bem português, só não sabia que essa conversa poderia mudar os rumos da minha viagem. Quando chegamos em Ollantaytambo ele me propôs uma alternativa ao caro trem para Machu Picchu, que até o momento eu acreditava ser a única forma de chegar no local. O novo trajeto era mais barato e também mais aventureiro. Pensei um pouco e concordei em fazer o caminho alternativo.
 
Enquanto não saímos rumo a Machu Picchu, eu aproveitei para conhecer as ruínas de Ollantaytambo, que também eram impressionantes. Tais construções cobriam quase que totalmente o morro ao lado da cidade, ficando expostas para quem quisesse vê-las. O nome do local vem de Ollanta, que era um guerreiro inca, e Tambo que significa pensão.
 
As ruínas estão divididas em 2 partes: alta e baixa. Na parte alta e também a mais impressionante é possivel encontrar restos de um templo, casas, e enormes pedras. Uma dessas pedras atinge um tamanho acima da média e está repleta de saliências. Uma das informações mais curiosas é que esse tipo de pedra só foi encontrada há 6 quilômetros de distância dali, o que gera uma dúvida em relação a como foram trazidas tais rochas, especialmente, como foram levadas até o alto da montanha.
 
A parte de baixo contêm algumas casas e uma série de banhos inkas, interconectados por aquedutos que levam a água para diversas partes do local. Só não fiquei mais no local porque o Sol já havia se despedido de todos e agora dava espaço para a noite. Ao sair dalí encontrei novamente o Steven, com quem eu iria para Machu Picchu, de uma forma que nem eu sabia direito.
 
Quando já era 9 da noite, resolvemos sair da cidade. O Steven esperou um caminhão passar pela cidade, conversou com o motorista, que parecia estar acostumado em levá-lo, e subimos na boléia. O lugar tinha espaço e uma espécie de beliche atrás do assento do motorista. Como eu já estava cansado, fui direto para uma daquelas camas e em poucos minutos já estava dormindo.
 
Sábado (5 de agosto de 2006)
Ollantaytambo – Aguas Calientes
 
Acordei com o caminhão parado na estrada. O motorista havia parado devido ao fato da estrada estava fechada, pois havia um ponto acima dos 4.000 metros de altitude, que nesta época ficava interditada devido à neve. Como isso o motorista aproveitava e tirava um cochilo. Voltei a dormir e só despertei com o caminhão trepidando como os buracos da estrada.
 
Foi alí que eu percebi que eu poderia chegar até Machu Picchu em bicicleta, porém agora já era tarde demais, mas de qualquer forma seria bom registrar o caminho, para outros ciclistas ou mesmo para uma futura pedalada. Mais ou menos às 7 da manhã chegamos num pequeno povoado chamado Santa Maria, onde só tivemos o tempo de comer alguma coisa e já entramos numa van para uma outra cidade, chamada Santa Teresa.
 
Apesar da curta distância entre as 2 cidades o veículo levou quase 3 horas para fazer o trajeto, devido às péssimas condições da pista, à 2 deslizamentos, que exigiam tratores para retirar as rochas do meio da pista, à 1 pneu furado, devido às rochas pontudas, e à montanha que tivemos que subir e descer. Tudo isso numa van lotada até o teto.
 
Foi um alívio quando chegamos, todos já estavam pingando suor dentro do veículo. A boa notícia era que alí, na pequena Santa Teresa, haviam banhos termais, que eram muito melhores que os famosos e sujos banhos de Aguas Calientes. Eu nem tinha roupa para cair na água, mas tinha que me refrescar naquela piscina, assim, de cueca mesmo, para o espanto das velhinhas, eu cai na água.
 
Depois do banho, iniciamos a caminhada até Agua Caliente, a cidade que fica logo abaixo de Machu Picchu. Primeiro saímos da cidade, atravessamos um rio por meio de um carrinho suspenso por uma corda e caminhamos até a hidroelétrica da região. Alí iniciamos a última parte da caminhada de quase 4 horas, pela linha do trem, até Aguas Calientes.
 
As pernas permaneceram fortes durante toda a caminhada e podiam andar muito mais, no entanto os pés já estavam destruídos após horas de pisadas sobre pedras pontudas. Eles pediam descanso fazendo bolhas nos meus dedos e sola do pé, chegou uma hora que eu só queria sentar e colocar os pés para cima.
 
Chegamos quando começava a noite na cidade panejada para o turísmo.Nos instalamos numa das raras hospedagens baratas do local e planejamos como faríamos para chegar cedo a Machu Picchu, para ver o Sol nascer alí, com a condição de não pagar os 6 dólares para os ônibus que levavam os turístas até o alto da montanha.
 
Teriamos que acordar às 4:30 da manhã. O único problema era que eu eu teria que ir para a estação de trem para comprar minha passagem para amanhã, pois se eu fosse voltar caminhando, perderia pelo menos outro dia, de um tempo que eu não tinha, ou melhor, o Arício não tinha.
 
Domingo (6 de agosto de 2006)
Aguas Calientes – Machu Picchu – Cusco
 
Acordamos às 4:30 mesmo, o que foi difícil. Estavamos cansados. Mesmo assim saímos da hospedagem e fomos para para a estação de trem. Para meu espanto, dei de cara com mais de 50 pessoas na fila e apenas um guichê, que levava mais de 3 minutos por pessoa (isso se o comprador colaborasse).
 
Percebi que se eu fosse ficar naquela fila até minha vez eu perderia a chance de ver o Sol nascer lá nas ruínas. Assim, era bom que eu tomasse uma atitude bem rápido. Na fila havia 80% de peruanos e 20% de turistas. Os turistas são geralmente politicamente corretos, menos os brasileiros. Assim, tinha que achar um rosto amigo entre os peruanos que esperavam sua vez.
 
Depois de alguns minutos, uma história e uma cara de cachorro com fome eu já estava a 3 pessoas do guichê. Os peruanos nem falaram nada. Comprei minha passagem por absurdos US$ 44,00 (isso porque era a mais barata), que nunca gastaria se não fosse minha falta de tempo. Quando estava saindo da fila senti um cutucão, era uma argentina que dizia que eu tinha que ir para o fim da fila, eu que já estava com a passagem na mão apenas disse: sim, eu sei e sorri.
 
A mulher começou a cuspir fogo e me xingar de todos os palavrões. Isso porque ela nem sabia que eu era brasileiro. Apenas dei um tchau para ela e fui embora feliz e correndo na direção de Machu Picchu. Como não iria entrar num daqueles ônibus teria que ser rápido para subir as escadas.
 
Depois de algumas sequências de degraus já estavamos somente de camiseta e na frente de todos as pessoas. Assim, ainda a noite conseguimos entrar nas ruínas por um caminho que poucos conhecem. Talvez nem mesmo os incas o conheciam. E na transição de noite para o dia eu estava suado, porém lá em cima.
 
Aproveitamos que já estavamos perto da entrada do Wayna Picchu, aquela montanha que sempre sai nas fotos atrás da cidade, e já partimos para mais uma escalada. Agora iriamos chegar até o ponto mais alto do local. Depois de muitos degraus chegamos ao pico, onde ficamos por um bom tempo, até que as nuvens saíssem da nossa frente para víssemos Machu Picchu lá embaixo.
 
Das milhares pessoas que visitam as ruínas todos os dias, só 400 têm a possibilidade de entrar na zona do Wayna Picchu (nome que significa Jovem Montanha). Dessas 400, pouquíssimas têm a disposição para conhecer a parte detrás da montanha, onde está o Templo de la Luna. Como estava alí, vivendo aquele momento e talvez nunca mais voltasse para estas ruínas, achei que valia a pena conhecer tudo o que eu podia.
 
Assim fiquei das 6 da manhã até as 2:30 da tarde do local e conheci tudo o que eu podia, da cidade que em quêchua significa Velha Montanha.
 
O mais interessante de tudo é que nenhum livro pode descrever é a sensação de estar lá. Creio que nem eu posso direito descrever, mas se trata de um lugar especial, de uma beleza peculiar. No meu caso, mesmo dormindo pouco e tendo todas as condições para estar cansado, alí nas ruínas, me sentia leve e bem disposto o tempo todo. Talvéz seja só o clima quente e úmido do local, mas talvéz seja algo mais, que só os incas poderiam explicar.
 
Depois de conhecer toda a cidade eu tive que sair correndo em direção à estação de trem. Desci aquela escadaria sem fim da forma mais rápida possível, mesmo assim cheguei apenas com tempo para pegar minhas coisas e ir embora. Nem almoçar eu consegui, tive que me contentar com algumas bolachas que comi durante a viagem de trem.
 
Cheguei em Cusco por volta das 8:30 da noite. Fui para a hospedagem onde esperava encontrar o Arício, mas nada dele. Saí e horas depois nada dele. Comecei a ficar preocupado e liguei para os 2 hospitais da cidade. Por sorte, nada também. Assim podia ficar tranqüilo, ele estava vivo. Pedi para abrirem o quarto para mim e pouco depois ele chegou. Vi que ele estava melhor, até já estava comendo.
 
Amanhã iremos embora.

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